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Opinião · Geopolítica

A Geopolítica do Camisa 10

Num mundo fraturado por governos, redes transnacionais funcionam como costura. O futebol global é um dos exemplos mais visíveis dessa dinâmica.


Meu filho tem seis anos. Em dias de Copa, sem motivo aparente, torce para a Espanha. A surpresa foi grande: sou eu quem o leva ao jiu-jítsu, e nem assim consegui formar um patriota.

Seu jogador favorito é o camisa 10 do Barcelona, Lamine Yamal. Levou um tempo para eu aprender a pronunciar o nome. "Laminêiamal", ele dizia. Ao ver minha confusão, ele traduziu para mim: "Camisa 10, pai".

Yamal nasceu na região de Barcelona, foi criado na Catalunha e é filho de pai marroquino e mãe equato-guineense. Poderia ter defendido três países. Escolheu a Espanha.

Perguntei ao meu filho por que torcia para a Espanha. Ele não soube explicar. Para uma criança de seis anos, Yamal não é uma discussão sobre política migratória, diáspora africana ou pressão sobre o welfare state europeu. É apenas o camisa 10 do time que ele escolheu amar.

A geopolítica enxerga três países. Meu filho enxerga um jogador e uma camisa bonita.

Em 2025, o mundo registrou o maior número de conflitos armados envolvendo Estados desde o início da série histórica, em 1946. Treze chegaram à classificação de guerra, e os confrontos diretos entre países atingiram o maior patamar de todo o pós-Segunda Guerra. Os gastos militares globais beiraram US$ 2,9 trilhões, acumulando crescimento real de mais de 40% em uma década. Meses depois desse balanço, 48 seleções entraram em campo em 2026. Bandeiras de países que discordam sobre fronteiras, sanções e história passaram a dividir os mesmos estádios, bares e praças.

É uma comparação desnivelada, mas nesse sentido a FIFA faz o que as Nações Unidas não conseguem — reúne povos e países em torno de uma causa comum.

A frase é injusta com a ONU. A ONU não foi criada para fazer seres humanos se abraçarem. Foi criada para impedir que Estados entrassem em conflito. Talvez a maior crise da ordem internacional não seja apenas uma crise de regras. Seja uma crise de pertencimento.

A FIFA também está longe de ser um modelo de governança. Ainda assim, ela reúne 211 associações afiliadas, mais do que os 193 Estados-membros da ONU. A Copa de 2026 tem 104 partidas. Apenas na fase de grupos, 4,6 milhões de pessoas passaram pelos estádios e 5,5 milhões pelos Fan Festivals. Segundo estudo da FIFA e da OMC, o torneio pode adicionar até US$ 40,9 bilhões ao PIB global. Por algumas semanas, a Copa se torna uma economia global temporária.

As Nações Unidas administram soberania, guerras e disputas territoriais. Na Copa, bilhões de pessoas sentem que participam de alguma coisa comum. A Copa não supera o nacionalismo. Ela o domestica. Ao menos por noventa minutos, o mundo aceita o mesmo campo, o mesmo relógio, um árbitro e as mesmas regras. O adversário não deixa de ser adversário. Apenas deixa de precisar ser inimigo.

Mas talvez não seja competir contra o outro que produza paz. A evidência oferece, ao menos, um alerta. Bertoli, em estudo publicado em 2017, comparou países que se classificaram para a Copa por margens estreitas com aqueles que ficaram por pouco de fora. O resultado sugere que o choque nacionalista associado à classificação aumentou a agressividade interestatal, sobretudo onde o futebol era o esporte dominante.

A paz, se vier, talvez venha de outro lugar: da construção de uma indústria na qual já não sabemos exatamente de que lado o outro está. Nesse sentido, a Copa é apenas o front-end nacionalista de uma estrutura radicalmente transnacional.

Durante um mês, jogadores que dividem o mesmo vestiário são reorganizados por nacionalidade. No resto do tempo, espanhóis, brasileiros, marroquinos, franceses, argentinos e japoneses treinam juntos todos os dias. Um clube pertence formalmente a uma cidade, mas seus jogadores vêm de vários continentes e sua torcida se espalha pelo mundo: a Champions League e a Libertadores reúnem, a cada temporada, dezenas de nacionalidades sob a mesma camisa. O DNA do futebol de elite hoje é transnacional.

Robert Keohane e Joseph Nye batizaram de interdependência complexa uma ordem marcada por múltiplos canais de conexão entre sociedades, na qual Estados deixam de ser os únicos protagonistas. O futebol é uma versão popular dessa lógica: clubes, jogadores, torcedores e capital atravessam fronteiras por baixo da diplomacia formal. Esses vínculos não impedem conflitos, mas tornam as sociedades menos estranhas umas às outras.

Em 2025, o futebol registrou mais de 86 mil transferências internacionais entre profissionais e amadores — jogadores atravessando fronteiras com contratos, famílias, agentes e, muitas vezes, vistos de trabalho. Somente no futebol masculino profissional, as taxas de transferência superaram US$ 13 bilhões.

Futebol não é apenas entretenimento. É uma cadeia global de trabalho, turismo, mídia, capital e mobilidade humana. Poucas indústrias movimentam tantas pessoas entre países enquanto, simultaneamente, lhes dão uma razão emocional para acompanhar o que acontece do outro lado da fronteira.

O meio do campo não funciona se cada jogador negociar a própria soberania antes de passar a bola. O lateral não precisa compartilhar a religião ou a história do centroavante. Precisa saber onde ele estará quando a bola chegar. A confiança nasce da repetição: do treino, do passe devolvido e da dependência cotidiana. Nesse sentido, essa indústria cria vínculos socioeconômicos que a diplomacia entre Estados, por mérito próprio, não foi desenhada para produzir.

Nada disso significa que futebol produza paz. A mesma indústria que aproxima também lava a imagem de quem a financia — petroestados compram clubes e sediam torneios para fabricar prestígio. A união da Copa é temporária: torcedores que se abraçam hoje voltam amanhã para ecossistemas que os ensinam a desconfiar uns dos outros. Afeto não intercepta mísseis. Mas redes humanas e econômicas alteram o ambiente no qual governos tentam transformar outra população em inimiga. A interdependência econômica informa o que um país perderá com uma guerra. A interdependência humana lembra quem ele atingirá.

Por isso não basta colocar países diferentes frente a frente — esse era o velho sonho da competição regulada, e ele tem um limite. É preciso colocá-los no mesmo time. A indústria global do futebol faz exatamente isso ao depender da circulação permanente de talento entre fronteiras.

Semana passada, comprei a camisa 10 do Yamal. Também não sei explicar exatamente por quê. Não pesquisei Lamine Yamal na Wikipédia nem conferi suas estatísticas de gols. Mas meu filho e eu temos agora uma segunda seleção — embora, obviamente, continuemos torcendo pelo Brasil.

O mundo não registrava tantos conflitos armados envolvendo Estados desde a Segunda Guerra Mundial. Durante um mês, a Copa organiza o mundo em bandeiras. Durante o resto do tempo, o futebol as mistura novamente. Num mundo em que governos insistem em desenhar linhas na areia, o futebol continua chutando a bola por cima delas.

Talvez a paz comece assim: quando olhamos para o outro lado do mundo e já não conseguimos enxergar onde o estrangeiro termina e o nosso próprio time começa.

Alex Lima