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Ensaio · Amor & Mercados

O Clube dos Corações Partidos

Três homens, um clube e uma lição que o mercado financeiro já conhece: proteger-se da volatilidade pode custar todo o lucro.


O mercado financeiro me trouxe muitos amigos. Um deles é o Zé.

O Zé é muito bem-sucedido. É um baita investidor e estuda empresas desde a adolescência. Tornou-se sócio de vários negócios e criou bem os filhos. Morou no exterior, comprou barco e casa. Tem diploma bonito na parede do escritório. "Boston é uma delícia no verão", gabava-se. Além disso, tinha síndrome de Tio Patinhas: sempre me ligava para perguntar sobre o mercado, mas fazia questão de dividir a conta.

Nada disso o poupou de um divórcio difícil. "Muito tempo, ódio e recursos. Dá no que dá."

No nosso último almoço, repousou o copo de saquê no balcão e disse: "Cara... você já usou aplicativos de relacionamento? Mas que negócio ruim."

Pensei que Zé estivesse falando sobre o business dos aplicativos. Logo percebi que a frustração era outra. Zé já não sabia reconhecer uma boa relação, mas identificava tudo que poderia dar errado. Aprendera a sair cedo, a não criar expectativa e a preservar opções. O que já não sabia era quando valia a pena ficar. No jargão dos investidores, Zé era um trader avesso ao risco.

"Num modelo que montei com dados de aplicativos, um homem de atratividade mediana precisa deslizar 1.193 vezes para chegar a um encontro. Uma mulher, 236", eu disse, enquanto pegava o gengibre com o hashi.

Ele se virou de repente, com um sorriso. "Experiência própria?"

"Modelo meu, com dados de aplicativos."

"Esse povo de data science é o máximo." Ambos rimos.

"Okeda, tem saba?", pediu ao sushiman, chamando o chef pelo nome. Ótimo — eu adoro cavalinha.

Foi aí que comecei a lhe contar uma história que, de certa forma, também era sobre nós. Talvez a história do nosso clube.

Homem A: quase quarenta anos, engenheiro, divorciado, pai de um filho pequeno. Foi enganado durante anos pela mulher em quem confiava. Desde então, ingressou na ala mais movimentada do Clube dos Corações Partidos: o clube do desapego. Relaciona-se quase exclusivamente com mulheres emocionalmente indisponíveis. Mantém relações com tudo de um namoro, menos o nome. Quando cria laços reais, foge ou congela a relação. Para ele, é quase generosidade. Os amigos o chamam de indisponível; ele prefere chamar de honestidade.

Homem B: cinquenta e poucos anos, empresário, duas filhas adultas, divorciado e com boa relação com a ex. Não é nativo digital. Depois de semanas conversando num aplicativo, trocam o Instagram. Cinco minutos depois, ela manda capturas de modelos que ele segue: "Você segue esses perfis? MAJOR RED FLAG. Tô fora." Ele desinstala o aplicativo. Semanas depois, tenta novamente. Outra mulher pergunta: "Você faz terapia?" Não era curiosidade. Era triagem. Ele desinstala outra vez.

Homem C: quarenta e poucos anos, empresário, ex-modelo, hoje celebridade. Assumiu-se homossexual durante uma formação religiosa e foi excluído da comunidade. Hoje fala de fé à sua maneira e fez da própria vida um púlpito. Há anos, porém, não mantém um relacionamento duradouro.

Seria confortável imaginá-los apenas como vítimas. O Homem A (que pode ser a Mulher A também) é a red flag na história de outras pessoas, e homens também fiscalizam, descartam e congelam.

Ainda assim, os três aprenderam a mesma lição: ser visto é perigoso. Um foi traído depois de investir. Outro é descartado antes de poder investir. O terceiro foi expulso ao revelar quem era. Cada um administra o risco e chama isso de personalidade, prudência ou liberdade.

Mas toda proteção cobra retorno: evitar a perda pode impedir qualquer ganho.

Bons investimentos exigem paciência: é preciso permanecer tempo suficiente para que o valor apareça. No amor, ao menos nos últimos tempos, fazemos o contrário. Selecionamos mais e abandonamos mais rápido. Sabemos mais antes do primeiro encontro do que nossos avós sabiam depois de meses. Olhamos Instagram e LinkedIn antes do primeiro encontro. Ainda assim, conhecemos menos.

A linguagem psicológica virou instrumento de exclusão: "narcisista", "evitativo", "tóxico", "red flag". Termos que deveriam abrir conversas passaram a encerrar investigações. As pessoas viraram ativos líquidos, vendidos ao primeiro sinal de volatilidade.

Muitos homens passam a primeira metade da vida aumentando o próprio valor de mercado — carreira, patrimônio, corpo, reputação — e aprendem que o que vale a pena demora. Aceitam risco profissional, financeiro e físico. Mas, na intimidade, uma conversa difícil parece desperdício.

O sucesso oferece opções, e opções reduzem a disposição para o desconforto. Os aplicativos alimentam a ilusão da opcionalidade infinita.

O Homem A diversifica para que nenhuma mulher tenha capital suficiente para destruí-lo — mas nenhuma recebe o bastante para transformá-lo. O Homem B permanece em caixa, convencido de que o mercado enlouqueceu. O Homem C é visto por milhares. Mas ser admirado por uma multidão não é o mesmo que ser conhecido por uma pessoa.

Ao manter mulheres em relações congeladas, o Homem A distribui a ferida que recebeu: presença suficiente para criar esperança, distância suficiente para não se responsabilizar. O Homem B perdeu tolerância à fricção.

"Eu sou o Homem B, suponho?"

Enquanto mastigava e mergulhava outro pedaço de peixe no shoyu, sorri de boca cheia. Foi minha única reação.

O reconhecimento público do Homem C pode funcionar como uma forma de controle: no palco, decide quanto mostrar; na intimidade, outra pessoa observa.

O trauma explica essas estratégias. Não as torna nobres. Pessoas julgadas cedo demais podem aprender a julgar cedo demais os outros. A dor recebida vira método. Vulnerabilidade passa a parecer fraude.

Paradoxalmente, o acesso instantâneo à informação nos faz esquecer que todo investimento de longo prazo oscila. Empresas excelentes atravessam crises. Pessoas confiáveis erram.

Isso não significa manter tudo: há abuso, mentira e violência, e saber sair importa tanto quanto saber ficar. Mas a capacidade de um bom investidor não é eliminar o risco. É distinguir risco de ruína.

No amor, isso significa observar o que acontece depois do conflito: reparação ou repetição? Responsabilidade ou racionalização?

Compramos na euforia. Vendemos no pânico. Confundimos química com fundamento.

Num mundo de aplicativos, manter todas as portas abertas exige nunca atravessar nenhuma até o fim. Tratamos imperfeição como fraude e ignoramos a fraude quando vem embalada em intensidade, beleza ou validação.

Confiança e pertencimento nascem de investimentos pouco eficientes: conversas difíceis, domingos comuns, pedidos de desculpas, promessas cumpridas quando ninguém vê. Nada disso tem a excitação de um novo match. Mas é assim que se constrói valor.

O Clube dos Corações Partidos não é formado apenas por quem teve o coração partido, mas por quem transformou a perda em filosofia. Por quem passou a acreditar que desapego é inteligência, desconfiança é experiência e disponibilidade é ingenuidade.

Talvez a sociedade esteja desaprendendo a permanecer tempo suficiente para descobrir se um investimento é bom. Aprendemos a identificar risco, não a reconhecer valor.

No amor, não há ganho de longo prazo sem concentração suficiente para que a perda seja possível.

O Homem A chama sua dispersão de liberdade. O Homem B chama sua retirada de prudência. O Homem C encontra no olhar de milhares a segurança que talvez não ache no olhar de um. Todos têm razões. Todos têm cicatrizes.

Zé não precisava aprender a identificar riscos; precisava reaprender quando valia a pena permanecer. O coração não remunera só quem aprendeu a não perder — em algum momento, é preciso voltar a investir.

Pela primeira vez em tantos anos, sem saber exatamente por quê, Zé pagou a conta.

Alex Lima