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Ensaio · Tecnologia & Comportamento

De Volta para o Futuro

O cinema acertou as máquinas por acaso e as pessoas achando que era piada. A tecnologia entregou os aparelhos — e eliminou as fricções que produziam relacionamentos, filhos e vínculos.


Faço aula particular de jiu-jitsu há dois anos. Minha professora é uma jovem amazonense faixa-preta que trocou Manaus por São Paulo, com uma mochila e nenhum plano B. Como o jiu-jitsu se espalha rapidamente pelo mundo, o plano A parece ir de vento em popa: ser instrutora numa rede renomada abre portas que antes não existiam.

Metade das aulas é prosa. Por parte dela, dada a tagarelice. Por minha parte, por descanso tático — a Micaela é vinte e poucos anos mais nova do que eu. De cabelo preto e liso, pele escura e sorriso sempre a postos, Micaela é fã da guarda-aranha e de leg locks sinistros. Em partes iguais brasileira e arma branca ambulante.

Entre as rotineiras tentativas de homicídio consensual, que, no jargão do esporte, chamamos de “soltinhos”, trocamos pérolas de sabedoria do tatame e da vida em geral.

— Mermão, vi uma trilogia maneira esse final de semana. De volta para o futuro — disse, animada.

Mal sabia ela que aquela era minha trilogia favorita. Meu lado enciclopédia falou mais alto — talvez pela possibilidade de esticar o intervalo entre os combates. Cada um com a sua faixa-preta.

— Quase tudo naquele filme já aconteceu — eu disse, com a mão no queixo e a respiração ainda desorganizada. — Direção autônoma já roda com passageiro pagante. Carro voador está em certificação. E o skate voador existe: um francês atravessou o Canal da Mancha em cima de um, em 2019.

— Mas o filme é de quando?

— O segundo? De 1989. E se passa em 2015.

Ela fez as contas em silêncio.

— Então os caras acertaram?

Pensei alguns segundos.

De Volta para o Futuro II se passa em 21 de outubro de 2015. A data-alvo ficou para trás há mais de dez anos, o que é uma sorte rara: dá para auditar a previsão inteira, com fechamento contábil. O resultado é engraçado. O filme errou o hardware pelo lado do exagero e acertou o comportamento da sociedade no futuro sem querer.

O jantar da família McFly em 2015. O filho à mesa de óculos de vídeo, atendendo duas ligações. A filha entrando e saindo. A TV exibindo seis canais ao mesmo tempo. O pai falando com um interlocutor que não está ali. Os aparelhos de fax em diversos cômodos da casa. Ninguém olha para ninguém, e a única coisa que de fato acontece naquela mesa é comida sendo aquecida.

Os roteiristas descreveram com precisão constrangedora a dinâmica de uma mesa de jantar em 2026 — e a filmaram como piada, porque em 1989 aquilo era absurdo demais para ser outra coisa.

— Acertaram as máquinas por acaso. E acertaram as pessoas achando que era piada — eu disse, finalmente.

Ela fez uma cara de dúvida, como quem precisa escolher entre um heel hook e uma kimura, e arrumou o kimono, pronta para o próximo round. Meu fôlego ainda não tinha voltado. A dor na lombar, essa nunca tinha ido embora.

Em termos de tecnologia, quase tudo chegou — e em versões menos cinematográficas e infinitamente mais baratas. Computadores com capacidade quase ilimitada no bolso de bilhões de pessoas.

Comentei que, hoje em dia, era mais difícil comprar uma casa, formar uma família, entrar numa profissão ou simplesmente ser conhecido por alguém.

Micaela concordou e deu de ombros. Para chegar em casa, ainda enfrentaria metrô e trem: quase três horas por dia no transporte público.

Barateamos quase tudo o que pode ser copiado e distribuído em escala. Informação virou commodity. Mas, ao mesmo tempo, encarecemos tudo o que não se fabrica.

Temos mais gente no mundo, mas menos formação de casais, menos filhos e menos fricção social. A tecnologia não destruiu sozinha essas coisas. Fez algo mais elegante: desintermediou relações e eliminou as fricções que ajudavam a produzi-las.

O trabalho remoto eliminou o deslocamento, mas também o café na copa. O banco digital eliminou a fila, mas também o contato casual. O comércio eletrônico eliminou a caminhada até a loja. O streaming eliminou a necessidade de combinar o filme. O delivery eliminou a praça de alimentação. Os aplicativos de relacionamento eliminaram o constrangimento da aproximação — e, com ele, parte daquilo que transformava atração em cortejo, cortejo em confiança e confiança em compromisso. Cada inovação resolveu um problema real. O problema é que algumas inconveniências carregavam, escondidas dentro delas, funções sociais importantes.

Nos Estados Unidos, conhecer alguém online ultrapassou a apresentação por amigos na década passada. Em 2017, 39% dos novos casais heterossexuais haviam se conhecido pela internet. Onde antes gente apresentava gente, passou a haver uma plataforma. E a que mais cresceu cobra assinatura.

De acordo com dados da American Time Use Survey, o tempo que americanos de 15 a 29 anos passam sem outra pessoa fisicamente presente aumentou cerca de 45% entre 2010 e 2023. Isso não prova que o smartphone tenha produzido sozinho a solidão. Mas expõe o paradoxo: nunca estivemos conectados a tantas pessoas e tão pouco obrigados a estar fisicamente com qualquer uma delas. Uma pesquisa com dois mil adultos americanos encontrou 49 minutos diários ao ar livre entre a Geração Z, dos quais um quarto é deslocamento. O mínimo que a ONU recomenda para detentos é uma hora por dia.

Alguns minutos e duas tentativas frustradas de armlock depois, o tempo e o fôlego haviam acabado. — Até semana que vem — disse ela, levantando-se. Saí do tatame com o kimono no ombro e o pescoço reclamando de uma guilhotina em que eu tinha entrado sozinho.

Foi aí que percebi a ironia da coisa toda.

O jiu-jitsu é a única transação da minha semana que ninguém conseguiu desintermediar. Não existe faixa-preta à distância. Não existe soltinho por aplicativo. A coisa só funciona porque duas pessoas concordam em ocupar o mesmo metro quadrado e treinar juntas.

É fricção pura.

Quando a fricção deixa de existir de graça, ela reaparece como assinatura mensal. Para correr, levantar peso, receber livros ou vinhos em casa. Ou até tomar ayahuasca com desconhecidos.

Aquele mesmo dia tinha sido normal. A balança do restaurante por quilo imprimira automaticamente a etiqueta do prato. Banco, mercado e farmácia, tudo resolvido pela tela. Compras pedidas pelo aplicativo, entregues na portaria eletrônica. Nenhuma dessas transações exigiu que eu falasse com um ser humano — e é justamente por isso que são melhores, mais baratas e mais rápidas do que eram em 1989.

O portão do meu prédio se abriu sozinho quando me viu chegar. E eu me dei conta de que, naquela semana, a única pessoa que tinha encostado em mim estava tentando me estrangular.

Que eu tinha pago muito bem por isso.

E que, durante metade da aula, o tagarela era eu.

Alex Lima