Emagrecimento Artificial
A tecnologia mais transformadora do futuro próximo talvez não substitua nosso trabalho — mas mude nosso corpo, nosso consumo e a economia.
Um amigo meu — vamos chamá-lo de Zé — marcou um almoço depois de muito tempo sem nos vermos. Amigo de muitos anos de mercado, achei que fosse passar o almoço inteiro falando de IA. Como todo mundo, ultimamente.
Quando entrou no restaurante, levei um susto.
A calça, sem cinto, ajustava perfeitamente na cintura. A camiseta preta Henley estava justa no peito. A barba branca de que eu me lembrava dera lugar a outra, curta, bem aparada e escura.
Era outro homem. Mais magro, musculoso e alinhado. Mais másculo — o que, no relativo, me deixava menos.
— Cara... você está diferente.
Ele se virou para o garçom sem sequer olhar o cardápio.
— Uma salada de atum, por favor.
Ambos olharam para mim.
— Duas — respondi, baixinho.
Era um misto de fome e vergonha.
Zé perdera quase uma arroba — cerca de 14 quilos — após poucos meses usando Mounjaro. Em alguém de 1,75 metro, parecia uma reforma estrutural. Precisou mandar ajustar dez calças. Os ternos ficaram enormes, com aquele caimento de policial de Miami nos anos 1980.
O almoço virou a volta da vitória de Zé. Mas eu estava genuinamente curioso.
— Mas a caneta foi só a primeira coisa — disse.
— E a segunda?
— O GPT.
Levantei a sobrancelha.
— ...O Chat?
— Reformulou meu guarda-roupa.
Zé iniciou um relato no qual o GPT havia assumido o papel de personal stylist. Recomendara peças básicas, cores complementares e combinações que, até aquele momento, eu não sabia que possuíam significado moral. Burgundy com tan era refinado. Tan com navy blue transmitia riqueza clássica. Cream com menta era sofisticado.
Perdi-me rapidamente. Talvez Zé tivesse esquecido que sou daltônico. Ele continuou.
— Aí comecei a pedir para ele avaliar minhas fotos.
— Fotos?
— Dos looks.
— Dos... looks?
— Sim. E aí uma coisa leva à outra. Você sabe.
Eu não sabia. Por alguma razão, minha curiosidade acadêmica aflorou.
— Fala logo, porra.
— Pedi para ele estimar a minha idade.
— Você não fez isso.
— Fiz.
— E ele mentiu, obviamente?
— Disse que eu parecia ter entre 38 e 42.
— Ah! Errou longe. Você tem 47.
A mesa ao lado olhou. Eu havia comemorado alto demais.
— Mas ele explicou que o cabelo grisalho, a barba branca e a calça sem barra me deixavam mais velho e descuidado.
— E aí?
— Cem reais de tonalizante para o cabelo e a barba. Mais quarenta para fazer a barra.
Eu queria dizer algo inteligente sobre elasticidade da demanda e fronteira tecnológica. Nada veio à mente. Minha análise foi curta.
— Puta que pariu.
Sem perceber, comecei a coçar o celular dentro do bolso.
Fui ao almoço achando que a parte futurista da história era o GPT. Estava errado. O GPT havia escolhido as cores. A caneta havia mudado o homem que cabia dentro das roupas.
Passamos os últimos anos discutindo a inteligência artificial como a tecnologia capaz de reescrever a sociedade. Mas talvez a inovação com maior capacidade de alterar a economia real não seja aquela que aprendeu a escrever.
É aquela que aprendeu a reduzir a fome.
A fome é uma das instruções mais antigas do organismo. Durante centenas de milhares de anos, encontrar calorias foi mais difícil do que evitá-las. Nosso corpo foi programado para procurar comida num ambiente de escassez. Depois, em poucas gerações, colocamos esse mesmo corpo dentro de supermercados, aplicativos de entrega e postos de gasolina que vendem três tipos de chocolate às três da manhã.
Então chamamos o resultado de falta de disciplina.
Nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, a obesidade entre adultos passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Em menos de vinte anos, mais do que dobrou. Não houve uma epidemia simultânea de fraqueza moral. O ambiente mudou mais rápido do que o organismo.
Os GLP-1 começam a desmontar essa moralidade. Durante décadas, o magro foi tratado como disciplinado; o gordo, como alguém que havia falhado. Agora, uma molécula demonstra que parte do comportamento atribuído ao caráter pode ser alterada farmacologicamente. Talvez muitas pessoas não precisassem de mais força de vontade. Precisassem de menos fome.
A transformação não termina na balança. Zé comprou o medicamento, ajustou calças, renovou o guarda-roupa e tonalizou a barba. A perda de peso não reduziu simplesmente seu consumo. Transferiu gastos. Saiu comida. Entraram roupas.
Nos Estados Unidos, 12% dos adultos afirmavam usar um GLP-1 no fim de 2025; 18% já haviam usado em algum momento. Não é mais um nicho de celebridades de Hollywood. É uma mudança populacional. Uma pesquisa baseada nas compras de famílias americanas constatou que, nos seis meses posteriores à adoção de um GLP-1, os gastos com supermercado caíram 5,3%. Em restaurantes fast-food, cafeterias e outros estabelecimentos de serviço rápido, a queda foi de aproximadamente 8%.
Um consumidor comprar 5% menos comida é uma mudança de hábito. Dezenas de milhões de consumidores comprarem 5% menos comida é uma mudança na função de demanda.
Restaurantes reduzirão porções. Fabricantes venderão mais proteína. Supermercados reorganizarão prateleiras. Marcas de roupas recalibrarão tamanhos. Academias, seguradoras, empresas de beleza e aplicativos de relacionamento sentirão a entrada de milhões de pessoas em novos corpos.
O garçom voltou para recolher os pratos.
— Sobremesa?
Zé, agora com a silhueta de um vilão elegante da Disney, pediu apenas um café.
Com um sorriso amarelo, recusei o melhor petit gâteau da região — e a verdadeira razão de eu ter escolhido aquele restaurante. Zé sorriu. Tentei responder à altura:
— Em 2024, quase três anos após a aprovação do Wegovy, a Unilever anunciou que separaria sua divisão de sorvetes.
— Hum.
Provavelmente não havia causalidade. Mas eu já tinha recusado a sobremesa.
O corpo de Zé parecia um assunto privado. Multiplicado por alguns milhões, virava macroeconomia. Os Estados Unidos gastaram US$ 5,3 trilhões com saúde em 2024 — US$ 15.474 por pessoa e 18% do PIB. A projeção oficial indica que essa participação chegará a 20,6% do PIB em 2034. Se os GLP-1 reduzirem parte das doenças associadas à obesidade, podem ser caros na farmácia e baratos para o sistema.
A IA promete reorganizar a produção. As canetas já reorganizam a demanda — e, com ela, corpos, carrinhos de supermercado e balanços corporativos. Mas toda revolução distribui seus benefícios de forma desigual.
Para Zé, pagar dois mil reais pelas canetas era uma pechincha. Para a maior parte dos brasileiros, é uma barreira. Pode surgir uma nova divisão social: corpos farmacologicamente otimizados de um lado; pessoas sujeitas ao mesmo ambiente alimentar do outro.
Existe outra ironia. A indústria alimentar passou décadas vendendo produtos desenhados para estimular consumo recorrente. Agora, a indústria farmacêutica vende uma assinatura para reduzir o apetite criado por esse ambiente. Sai o delivery. Entra a dose mensal.
Ainda assim, seria cinismo ignorar a esperança. Quase todo mundo conhece alguém que passou a vida lutando contra o peso. Alguém que deixou de viajar, fotografar, namorar ou simplesmente se olhar no espelho sem culpa. Pela primeira vez, uma inovação pode devolver a essa pessoa não apenas alguns anos de vida, mas vida aos anos que ainda possui.
A economia global havia sido construída acreditando que Zé continuaria com fome.
Despedi-me dele e voltei pensativo para o escritório.
A porta do elevador se abriu. Entrei sozinho. Havia um espelho.
Antes de o elevador chegar ao meu andar, eu já havia enviado uma foto. A instrução foi clara: “O que devo fazer para melhorar minha imagem pessoal, com baixo investimento?”
A resposta veio antes de a porta abrir:
— Comece pela barra da calça.
Alex Lima
An old friend of mine — let's call him Zé — set up a lunch after a long time without seeing each other. A friend from many years in the markets, I assumed he'd spend the whole lunch talking about AI. Like everyone else, lately.
When he walked into the restaurant, I got a shock.
His trousers, beltless, fit perfectly at the waist. The black Henley was snug across his chest. The white beard I remembered had given way to another one — short, neatly trimmed and dark.
He was another man. Leaner, more muscular, more put-together. More masculine — which, in relative terms, left me less so.
— Man... you look different.
He turned to the waiter without even glancing at the menu.
— A tuna salad, please.
They both looked at me.
— Make it two — I answered, quietly.
It was a mix of hunger and shame.
Zé had lost almost 30 pounds — about 14 kilos — after just a few months on Mounjaro. On someone 1.75 meters tall, it looked like a structural renovation. He had to have ten pairs of trousers taken in. His suits hung enormous, with that 1980s Miami-cop drape.
Lunch had turned into Zé's victory lap. But I was genuinely curious.
— But the pen was just the first thing — he said.
— And the second?
— GPT.
I raised an eyebrow.
— ...The Chat?
— It overhauled my wardrobe.
Zé launched into an account in which GPT had taken on the role of personal stylist. It had recommended basics, complementary colors and combinations that, until that moment, I didn't know carried moral significance. Burgundy with tan was refined. Tan with navy blue conveyed classic wealth. Cream with mint was sophisticated.
I lost the thread quickly. Maybe Zé had forgotten I'm color-blind. He went on.
— Then I started asking it to rate my photos.
— Photos?
— Of the outfits.
— Of the... outfits?
— Yes. And then one thing leads to another. You know.
I didn't know. For some reason, my academic curiosity kicked in.
— Just spit it out, damn it.
— I asked it to estimate my age.
— You did not.
— I did.
— And it lied, obviously?
— It said I looked between 38 and 42.
— Ha! Way off. You're 47.
The next table looked over. I'd celebrated a little too loudly.
— But it explained that the gray hair, the white beard and the unhemmed trousers made me look older and careless.
— And?
— A hundred reais on tint for the hair and beard. Another forty to hem the trousers.
I wanted to say something clever about demand elasticity and the technological frontier. Nothing came to mind. My analysis was brief.
— Holy shit.
Without realizing it, I started fidgeting with the phone in my pocket.
I'd gone to lunch thinking the futuristic part of the story was GPT. I was wrong. GPT had picked the colors. The pen had changed the man who fit inside the clothes.
We've spent the last few years discussing artificial intelligence as the technology capable of rewriting society. But maybe the innovation with the greatest power to alter the real economy isn't the one that learned to write.
It's the one that learned to reduce hunger.
Hunger is one of the body's oldest instructions. For hundreds of thousands of years, finding calories was harder than avoiding them. Our body was programmed to seek food in an environment of scarcity. Then, in a few generations, we placed that same body inside supermarkets, delivery apps and gas stations that sell three kinds of chocolate at three in the morning.
Then we call the result a lack of discipline.
In Brazil's state capitals and the Federal District, adult obesity rose from 11.8% in 2006 to 25.7% in 2024. In under twenty years, it more than doubled. There was no simultaneous epidemic of moral weakness. The environment changed faster than the body.
GLP-1s are beginning to dismantle that morality. For decades, the thin were treated as disciplined; the fat, as someone who had failed. Now a molecule shows that part of the behavior attributed to character can be altered pharmacologically. Maybe many people didn't need more willpower. They needed less hunger.
The transformation doesn't end on the scale. Zé bought the drug, took in his trousers, renewed his wardrobe and tinted his beard. The weight loss didn't simply reduce his consumption. It shifted his spending. Out went food. In came clothes.
In the United States, 12% of adults said they were using a GLP-1 at the end of 2025; 18% had used one at some point. It's no longer a niche of Hollywood celebrities. It's a population-level shift. A study based on American households' purchases found that, in the six months after adopting a GLP-1, grocery spending fell 5.3%. At fast-food restaurants, cafés and other quick-service outlets, the drop was around 8%.
One consumer buying 5% less food is a change of habit. Tens of millions of consumers buying 5% less food is a change in the demand function.
Restaurants will shrink portions. Manufacturers will sell more protein. Supermarkets will rearrange shelves. Clothing brands will recalibrate sizes. Gyms, insurers, beauty companies and dating apps will feel millions of people entering new bodies.
The waiter came back to clear the plates.
— Dessert?
Zé, now with the silhouette of an elegant Disney villain, asked only for a coffee.
With a sheepish smile, I turned down the best petit gâteau in the area — and the real reason I'd chosen that restaurant. Zé smiled. I tried to match him:
— In 2024, almost three years after Wegovy's approval, Unilever announced it would spin off its ice-cream division.
— Hm.
There probably wasn't any causality. But I'd already turned down dessert.
Zé's body seemed like a private matter. Multiplied by a few million, it became macroeconomics. The United States spent US$ 5.3 trillion on health in 2024 — US$ 15,474 per person and 18% of GDP. The official projection has that share reaching 20.6% of GDP by 2034. If GLP-1s reduce part of the disease burden associated with obesity, they can be expensive at the pharmacy and cheap for the system.
AI promises to reorganize production. The pens are already reorganizing demand — and, with it, bodies, grocery carts and corporate balance sheets. But every revolution distributes its benefits unevenly.
For Zé, paying two thousand reais for the pens was a bargain. For most Brazilians, it's a barrier. A new social divide may emerge: pharmacologically optimized bodies on one side; people subject to the same food environment on the other.
There's another irony. The food industry spent decades selling products designed to stimulate recurring consumption. Now the pharmaceutical industry sells a subscription to reduce the appetite that environment created. Out goes delivery. In comes the monthly dose.
Even so, it would be cynical to ignore the hope. Almost everyone knows someone who spent their life fighting their weight. Someone who stopped traveling, taking photos, dating or simply looking in the mirror without guilt. For the first time, an innovation may give that person back not just a few years of life, but life to the years they still have.
The global economy had been built believing Zé would stay hungry.
I said goodbye and walked back to the office, lost in thought.
The elevator doors opened. I stepped in alone. There was a mirror.
Before the elevator reached my floor, I'd already sent a photo. The prompt was clear: “What should I do to improve my personal image, on a low budget?”
The reply came before the doors opened:
— Start with the hem of the trousers.
Alex Lima