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Geopolítica

Não se faz mais geopolítica como antigamente


Niccolò Machiavelli é lembrado por uma frase icônica: “É mais seguro ser temido do que amado.” O conselho completo era mais sofisticado: o ideal é ser amado e temido. Durante oitenta anos, os Estados Unidos conseguiram chegar perto disso. Hoje, parecem interessados apenas na metade mais barata — e menos estratégica — da equação.

Há uma métrica que sumiu do vocabulário de Washington nos últimos anos. Não é o PIB. Não é o orçamento do Pentágono como proporção do produto. Não é o saldo comercial. É o retorno que uma potência obtém sobre tudo o que coloca no resto do mundo: capital, segurança, tecnologia, acesso ao próprio mercado e legitimidade. Quanto disso volta em forma de influência?

Vou chamar de GROI — Geopolitical Return on Investment.

Durante oitenta anos, os Estados Unidos foram a maior máquina de GROI da história. Hoje, parecem estar liquidando esse estoque para fazer caixa.

História

O verdadeiro negócio do pós-guerra

Roma cobrava tributo. A Espanha extraía prata. A Grã-Bretanha administrava colônias. Todos partiam da mesma intuição: hegemonia vem de submeter o outro. Depois de 1945, o roteiro clássico do vencedor estava disponível — reparações, humilhação, recolhimento. Washington fez quase o oposto. O Plano Marshall financiou a reconstrução europeia. Bretton Woods criou o FMI e o Banco Mundial. A OTAN transformou defesa coletiva em infraestrutura de confiança.

A Alemanha derrotada virou pilar industrial da Europa. O Japão ocupado virou aliado tecnológico. A Coreia do Sul saiu das ruínas para produzir Samsung, Hyundai, semicondutores e dissuasão contra a Coreia do Norte. Os Estados Unidos descobriram outra coisa: o retorno maior vem de transformar o derrotado em cliente.

O retorno maior vem de transformar o derrotado em cliente.

Nada disso foi caridade. Foi alocação de capital geopolítico. Exportavam tecnologia e recebiam dependência de infraestrutura. Ofereciam segurança e recebiam bases. Desenvolviam tecnologia e vendiam armamento. Abriam o próprio mercado e recebiam alinhamento. O retorno geopolítico por dólar gasto não tem paralelo na história moderna.

O McDonald's, durante boa parte da globalização, funcionou como termômetro informal desse processo. "Tem McDonald's aqui?" era, no fundo, uma pergunta sobre integração. A praça de alimentação como sinal luminoso de que aquela economia havia sido plugada no sistema operacional americano. O sanduíche era o de menos. O que importava era o alcance da hegemonia americana.

Análise

GROI negativo

A escalada militar com o Irã é exemplo de GROI negativo — e é traiçoeira porque o poder militar pode funcionar taticamente, mas destruir valor estratégico. Ataques podem degradar capacidade militar iraniana. Esse lado da conta entrega. O outro lado é menos visível e mais caro: prêmio de risco no petróleo, exposição dos aliados do Golfo, cadeias de suprimento mais frágeis, maior demanda global por hedge geopolítico e uma narrativa pronta para China e Rússia: os Estados Unidos vendem ordem, mas entregam instabilidade.

Eisenhower, general que virou presidente, entendeu uma coisa que Washington desaprendeu: existe um ponto em que mais gasto militar não aumenta segurança — reduz o retorno estratégico do poder americano.

Cada dólar gasto em armamentos acima do necessário tem um efeito de enfraquecimento de longo prazo sobre a nação e sua segurança.

A escalada com o Irã parece estar nesse ponto: cada dólar adicional gasto hoje cria mais incentivo para que o mundo procure alternativas ao sistema americano.

Mercados

O recuo silencioso do dólar

O dólar respondia por cerca de 71% das reservas cambiais globais no início dos anos 2000; hoje está perto de 57%. Parte do recuo recente reflete efeito cambial, não necessariamente fuga deliberada dos bancos centrais. Mas, para quem pensa em décadas, a direção da curva importa mais que a explicação de um trimestre.

O dólar segue dominante, mas alternativas vêm sendo discutidas com mais seriedade — e o ouro voltou a ocupar espaço no balanço dos bancos centrais. Em relatório de junho de 2026, o Banco Central Europeu apontou que, no fim de 2025, o ouro já respondia por 27% das reservas oficiais globais a valor de mercado, à frente dos Treasuries americanos (22%) e do euro (15%). O próprio ECB faz a ressalva de que a virada reflete sobretudo a disparada do metal.

Caso

A pechincha do hemisfério

Cuba entra nessa lógica também. Uma ilha a 150 km da Flórida, ligada aos Estados Unidos por milhões de cubanos e descendentes, remessas, música, beisebol, comida e memória. Um regime autoritário envelhecido, uma população exausta e necessidade imediata de combustível, remédio, comida, água, energia e canais de pagamento. A resposta de Washington é apertar mais.

A lógica é antiga: sufocar o regime até ele quebrar. O problema é que regimes não quebram no vácuo — quebram em cima de gente. O resultado provável não é uma democracia limpa surgindo na manhã seguinte. É escassez, repressão, migração, ressentimento e mais propaganda antiamericana. É um péssimo negócio.

Regimes não quebram no vácuo — quebram em cima de gente.

Cuba talvez seja um dos investimentos geopolíticos mais baratos do hemisfério ocidental. Cem milhões de dólares em ajuda humanitária incondicional não comprariam troca de regime — e nem é esse o ponto. Comprariam algo mais durável: influência.

Estratégia

Influência, não troca de regime

Isso é GROI no estado puro: capturar uma posição estratégica antes que o colapso a transforme em rancor permanente. É um erro estratégico medir o sucesso da política externa pela queda do regime cubano. Mudança de regime é binária, incerta, cara e quase sempre caótica. GROI é cumulativo.

Mudança de regime é binária, incerta, cara e quase sempre caótica. GROI é cumulativo.

A pergunta certa não é: "como derrubamos Havana?" É: "como aumentamos a chance de a próxima geração de cubanos associar prosperidade e futuro aos Estados Unidos — e não à China, à Rússia ou ao trauma do embargo?"

Uma estratégia competente faria duas coisas ao mesmo tempo: manter pressão seletiva sobre elites e aparato repressivo, enquanto abre canais largos de ajuda, remessa, remédio, energia e operação privada para reduzir sofrimento civil e aumentar a exposição cubana ao capital americano. Não é fraqueza. É underwriting de uma transição que ainda vai acontecer, com ou sem Washington presente nela.

Conclusão

So what? Temido, amado — ou irrelevante

A leitura corrente em Washington é que o mundo respeita os Estados Unidos quando tem medo deles. É parcialmente verdade. O mundo respeitou os Estados Unidos porque tinha medo de ficar fora da ordem americana. Isso é diferente. Derrotar a Alemanha foi hard power. Reconstruí-la foi GROI. Conter a União Soviética foi hard power. Fazer metade do planeta desejar dólar, universidade e IPO americano foi GROI.

O poder dos Estados Unidos não está se depreciando por falta de porta-aviões.

O poder dos Estados Unidos não está se depreciando por falta de porta-aviões. Está se depreciando porque Washington vem queimando os ativos intangíveis que tornavam esses porta-aviões mais úteis: confiança, previsibilidade, legitimidade e gratidão.

Cuba é pequena o bastante para virar nota de rodapé, próxima o bastante para ser estratégica e frágil o bastante para oferecer um dos melhores trades de GROI disponíveis.

A pergunta nunca foi se os Estados Unidos conseguem apertar Cuba. Conseguem. A pergunta é se ainda conseguem fazer algo mais difícil: investir generosidade hoje para comprar alinhamento amanhã.

Apesar da fama de bons investidores, os EUA estão deixando passar uma das maiores pechinchas geopolíticas do século 21. O velho manual americano entendia que influência não nasce apenas de coerção. Nasce também da capacidade de fazer o outro desejar participar da sua ordem. Esse foi o verdadeiro negócio americano do pós-guerra. E é justamente esse bom e velho GROI que Washington parece ter esquecido como calcular.

Alex Lima