Alex Lima ← Todos os ensaios
Ensaio · Mercados

O especialista em negócios ruins

O mercado dá o microfone a quem vence e esquece quem perdeu — mas é quem pisou nas minas que sabe onde elas estão. A habilidade mais difícil de aprender é dizer não.


Fiz uma promessa para o segundo semestre. Toda a energia extra que vinha dedicando ao projeto recente da minha empresa eu iria rotear para a vida pessoal. Marcar médicos. Ir mais à academia. Passear mais com meu filho.

Quando o Zeca me ligou para almoçar, aceitei na mesma hora. Promessa é dívida.

O Zeca é um sujeito diferente. Uma espécie de Buda do mercado financeiro. Já viu tanta coisa dar errado que adquiriu aquela serenidade irritante de olhar proposta de negócios como o que realmente são: sonhos formatados.

A maioria dos meus outros amigos do mercado pertence à outra espécie. Talvez seja uma característica evolutiva do Homo faria-limensis: a necessidade de contar vantagem enquanto finge estar reclamando.

— Meu bônus foi péssimo este ano.

E, antes que alguém pergunte, informa um valor que compraria uma Porsche 911.

— A Felicia não consegue mais frequentar a Baronesa. As pessoas estão muito superficiais.

Ou:

— Comprei o título daquele clube de surfe. Caro, mas, se eu for quatro vezes por mês, sai mais barato do que viajar para Portugal. Baita arbitragem.

Na Faria Lima, até lazer precisa ter tese de investimento.

O Zeca é diferente.

— Sou especialista em negócios ruins — ele costuma dizer.

Como se pode imaginar, não é exatamente uma indústria em alta. Também não rende muitos convites para podcasts, palestras ou painéis sobre alpha generation. Mas, depois de anos ouvindo histórias de pescador sobre bônus, trades e negócios extraordinários, comecei a suspeitar que a coleção de fracassos do Zeca talvez valesse mais do que parece.

A carreira dele nunca produziu as histórias que fazem sucesso naquela avenida.

Produziu outra coisa: desafetos, sócios ruins, acordos péssimos, partnerships assimétricos e depois de quase duas décadas, uma capacidade quase clínica de reconhecer uma cilada. Não é à toa que trabalha com venture capital. Especialização adequada.

— A coisa mais importante que aprendi na minha carreira foi a dizer não — disse durante o almoço. — Um deal ruim te amarra durante muito tempo. Acabei de recusar ser co-founder de um projeto com valuation altíssimo.

— Ué. Por quê?

— Incentivos desalinhados. Eu seria CEO de uma subsidiária, teria que multiplicar o negócio por dez e, mesmo assim, não teria participação real nem voto na empresa mãe. É trabalhar para fazer o foguete decolar e o prêmio ser assistir ao chefe pousar na Lua.

— Mas cinquenta por cento de nada é zero. Se der muito certo, você vai ter mais do que tem hoje — rebati.

Zeca balançou a cabeça e fez sinal para o garçom trazer mais pão. Desculpe. Focaccia.

— Não necessariamente. Fundador bom sabe estruturar um contrato para o negócio dar certo e você continuar do lado errado da mesa.

Engoli seco. Nem a manteiga de ervas ajudou.

Lembrei de algumas características do cap table da minha própria sociedade. Como reflexo, fiz o que economistas fazem quando uma conversa começa a ficar pessoal demais.

Cuspi uma estatística.

— Os fundadores das empresas de maior crescimento têm, em média, uns 45 anos. Experiência deve contar para alguma coisa.

Ele sorriu, com aquela sabedoria irritante financiada por desilusões a perder de vista.

— Claro que conta. Mas cuidado com o survivorship bias. Você está olhando para os caras de 45 que chegaram lá. Cadê os outros que erraram até quebrar?

Zeca disse aquilo com o peso de quem já havia pago algumas mensalidades. No mercado, certas aulas só aceitam prejuízo como forma de pagamento.

Foi então que percebi uma coisa incômoda.

A Faria Lima é uma indústria em que todo mundo conta os trades vencedores e reescreve os perdedores. Os acertos viram cases, posts no LinkedIn, podcasts e palestras. Os erros são discretamente editados da autobiografia.

O Zeca acumulou exatamente o banco de dados que ninguém exibe. Eu também já tinha contribuído para aquela base. Não fiz questão de comentar.

Existe uma espécie de seleção adversa na maneira como o mercado distribui sabedoria. Quem vence fica com o microfone. Quem perde, muitas vezes, fica com as melhores informações sobre onde estavam as minas terrestres. O problema é que quase ninguém pergunta ao sujeito que pisou nelas.

Isso distorce nossa ideia de experiência. Observamos quem chegou ao topo e tentamos copiar seus hábitos, decisões e frases de efeito. Raramente procuramos quem tomou decisões parecidas, com informações parecidas, e terminou do lado errado da distribuição.

Talvez por isso uma das coisas mais difíceis de aprender no mercado seja justamente aquilo que Zeca dizia ter aprendido: dizer não.

No começo da carreira, você olha para um negócio e pergunta quanto pode ganhar.

Depois de alguns anos, começa a perguntar de que maneiras pode perder. Não apenas dinheiro.

Um mau investimento pode custar capital. Um mau contrato pode custar reputação. Um mau sócio pode custar anos.

Foi aí que lembrei da promessa que tinha feito para o segundo semestre.

Eu havia passado anos tratando meu tempo como se fosse um recurso infinito. Toda hora marginal podia ser entregue ao trabalho porque sempre haveria outra noite, outro fim de semana, outro almoço com um amigo, outro passeio com meu filho.

Antes que chegasse a sobremesa, Zeca olhou o relógio.

— Preciso ir. Estou atrasado para uma reunião.

Para um especialista em negócios ruins, continuava surpreendentemente interessado em novos negócios.

Fez sinal para o garçom trazer a conta.

— Outra startup?

— A terceira esta semana.

Sorri.

— Ray Kroc começou tarde.

Sinceramente foi a única referência que me veio à cabeça.

— Excelente exemplo — respondeu. — Sabe qual foi o maior talento dele?

— Construir a maior rede de fast-food do mundo?

— Não. Entender antes dos irmãos McDonald onde estava o controle do negócio.

— Nos hambúrgueres?

Zeca levantou.

— Nos contratos.

Pegou o celular e levantou.

Antes de sair, virou-se:

— Esses caras da reunião... estão procurando um sócio. De preferência economista.

E deixou a frase no ar.

— O fundo é daquele fulano?

A resposta veio com um sorriso amarelo. — Esse mesmo.

— Não, obrigado.

Alex Lima