Paz Inflacionada
O cessar-fogo existe no papel. Economicamente, já começa a perder valor — e o mercado ainda não precificou o custo real de uma guerra que não precisa escalar para continuar inflacionária.
A frase, geralmente atribuída ao senador americano Hiram Johnson, atravessou mais de um século porque descreve algo que mercados costumam esquecer em momentos de alívio: em guerra, o comunicado oficial raramente é o mesmo que o estado real do conflito.
O cessar-fogo no Golfo ainda pode existir no papel. Mas, economicamente, ele começa a perder valor. A ausência de uma ruptura formal não impediu a deterioração operacional. Em meio a um Congresso cada vez mais impaciente, Washington rebatizou a missão e redescreveu o papel dos ativos militares posicionados no Golfo. Sem reconhecer a mudança americana como sinal de desescalada, o Irã voltou a atacar os Emirados Árabes. A linguagem diplomática ainda tenta preservar a ideia de trégua. Drones e mísseis já refletem outra coisa.
Fomos particularmente vocais sobre a dificuldade de um acordo de paz. Nossos modelos de teoria dos jogos atribuíam 55% de probabilidade a um cenário em que as negociações não avançariam. A razão era simples: os incentivos de Irã, Israel e Estados Unidos eram estruturalmente incompatíveis, sobretudo em torno do programa nuclear iraniano, da presença militar americana no Golfo e da sobrevivência política do regime em Teerã. Em guerras assimétricas, o tempo raramente é neutro. Quanto mais tempo passa, maior é o vetor inflacionário global.
A sensação de déjà vu não é acidental. O Brent negocia novamente na região de US$110 por barril. O yield da Treasury de 10 anos ronda 4,40%, enquanto o bond de 30 anos flerta com a zona psicologicamente perigosa de 5%. A gasolina americana já pressiona o consumidor em várias regiões. Ao mesmo tempo, o S&P 500 segue próximo das máximas, embalado pela temporada de balanços e pela euforia em torno de lucros corporativos. O mercado de ações ainda negocia earnings. O mercado de commodities negocia guerra.
O fluxo no Estreito de Hormuz pode melhorar marginalmente por alguns dias, especialmente se a escolta naval americana conseguir abrir corredores temporários. Mas a normalização logística exige mais do que navios passando. Exige seguro, previsibilidade, ausência de incidentes e confiança de armadores. Basta uma nova rodada de ataques a embarcações, militares ou comerciais, para que o tráfego volte a congelar antes mesmo de qualquer declaração formal de ruptura do cessar-fogo.
Voltamos à estaca zero — mas com preços mais altos. Petróleo cru, gás natural, frete, enxofre e outros insumos ligados à cadeia energética e agrícola continuam distorcidos. Esse é o canal macro mais importante. A guerra não precisa escalar todos os dias para continuar inflacionária. Ela só precisa durar tempo suficiente com preços relativos fora do lugar.
Estamos entrando no terceiro mês do conflito. Isso já é tempo bastante para o choque deixar de ser apenas financeiro e começar a aparecer na inflação global. Nossas simulações iniciais, usando parâmetros similares aos choques observados após a guerra da Ucrânia, sugerem que seis meses de conflito com a atual distorção de preços seriam suficientes para gerar pressão relevante sobre alimentos. A intensidade estimada ficaria entre 40% e 50% do choque alimentar observado em 2022.
Esse custo, porém, não se distribui de forma simétrica. Há uma assimetria política que o mercado parece subestimar. Na margem, os EUA parecem carregar uma função de perda política mais sensível do que o Irã. Washington carrega o custo da gasolina, da inflação, da aprovação presidencial, do Congresso impaciente e de qualquer baixa militar transmitida em tempo real. Teerã, por outro lado, opera sob uma lógica de sobrevivência do regime, em que prolongar o conflito pode ser menos custoso do que ceder no programa nuclear ou parecer derrotado. O precedente histórico é conhecido: do Líbano em 1984 ao Afeganistão em 2021, a superioridade militar americana nem sempre se traduz em superioridade política. Em conflitos assimétricos, a potência maior não precisa ser vencida no campo de batalha; basta que a permanência se torne politicamente mais cara do que a retirada.