A cozinha em Granada era uma obra de arte em tons de cerâmica clara e aço escovado. As duas bocas acesas do fogão queimavam em conjunto, uma preparando um molho bolonhesa e a outra fervendo água. Ela preparava um almoço de domingo para as filhas de Hernán, Carmen e Inés, que aguardavam na sala enquanto brincavam com Raul, o vizsla da família, um cão que tinha a autoconfiança de quem sabia ser o mais fotogênico da casa.
Abriu o armário superior, uma porta de pátina naval, e pegou um pacote de spaghetti. Puxou uma faca da primeira gaveta. Tinha uma lâmina preta, cor incomum para um utensílio doméstico. "Geralmente essa cor é de armas táticas de combate corpo a corpo" — como se lembrasse de algo, e rasgou a embalagem. Um maço escorregou para a mão livre; em seguida pressionou ambas as extremidades, esperando o lógico: quebrar em duas partes, para caber na panela.
A memória não pediu licença. Chegou com o som seco de algo se partindo. Crac.
Em vez da cozinha industrial de Granada, ela estava agora numa bancada menor e mais colorida, no Rio. As panelas sujas, o samba na rua, o sol que torrava pela janela, a areia que se esgueirava pela porta. E Lucas, sempre sorrindo, observando-a se desenrolar na cozinha, à espreita de um momento para ser cirurgicamente inconveniente.
Três pedaços assimétricos de spaghetti caíram na água. Um voou como um estilhaço por cima do ombro. "Peça inútil de carboidrato", ela murmurou, tentando de novo com outro punhado. Crac. Quatro pedaços.
Lucas se aproximou e viu a garrafa de vinho na metade. Fez o que fazia melhor: provocá-la.
"O vinho tinto... está no molho ou no seu sangue?"
"Ninguém te chamou aqui, seu fofoqueiro."
E antes que ela pudesse contrair os glúteos para amortecer o impacto, um slap na bunda. Um "Ai!", acompanhado de um sorriso malicioso dos dois. Ela olhou para trás e disse, quase lasciva — "lembra?" — e se beijaram, encaixados no corredor estreito.
"Essa faca está sem fio para cortar a cebola. Usa essa", disse, abrindo a terceira gaveta. Do empilhamento de utensílios, pescou uma faca toda preta que Ane nunca havia visto.
"A cor não combina com gastronomia. Ela é mais adaptada para liderar uma missão de resgate em território inimigo", e lhe entregou a faca tática, com uma piscadela.
"Que bacana." — era de fato uma faca bonita. Com inscrições prateadas.
"É de Toledo. Os espanhóis têm boa tradição em fazer facas e espadas. Sabia que a maioria dos props cinematográficos de Senhor dos Anéis foram feitos lá?", e virou a faca dos dois lados, exibindo-a.
"Hum. Não sabia."
Lucas tinha dois hábitos diários: referências pop obscuras e lembrar Ane de tomar seus remédios.
"Um dia iremos. É lindo lá. As tavernas são especiais. Já fui em uma que existe há mais de 300 anos. Vamos tomar sangria e ficar borrachos."
"Olhe só. Você é mais que um rostinho bonito."
Ele sorriu. "É assim mesmo. Eu tenho duas configurações: sarcástico e sedutor."
Ela puxou outro maço de macarrão do pacote, e antes que pudesse produzir o mesmo erro, ele interveio.
"Meu Deus. Leia um livro de física." — riu. — "Você vai arrebentar o macarrão de novo." — Apontou para a esbórnia de estilhaços na pia e no chão.
Ela perdia a paciência facilmente. "Não me venha com teoremas, por favor!"
Ele levantou as mãos como se rendesse. "Esse não é meu. Conhece o Feynman?"
Ela lembrava vagamente, mas não a solução.
"Ah, mas aí está a beleza da coisa", ele continuou, o tom agora de um professor. "Você acha que está no controle, mas não está. Quando o macarrão quebra aqui..." — apontou para o ponto de fratura de um pedaço imaginário — "...a tensão não desaparece. Ela dispara de volta pelo fio, como um chicote. Uma onda." Gesticulava com as mãos, desenhando ondas invisíveis no ar. "Essa onda de retorno dobra o resto do fio com tanta força que ele quebra de novo. E de novo. É uma cascata."
Ela o encarava, impassível. "Ondas de flexão. Legal. Agora me ajuda a cozinhar ou sai da minha cozinha", juntando, como de costume, o polegar e o indicador junto ao nariz, num gesto sóbrio, como num discurso político. Os dedos longos e a longa silhueta lembravam uma versão de vilã da Disney.
Ele riu, pois era apaixonado pelos trejeitos dela. "Com licença." Lucas pegou o pacote de espaguete da mão dela. "O truque, segundo uns caras bem mais espertos que nós no MIT, não é força." Pegou um maço, segurou as pontas e começou a torcê-lo, como se estivesse dando corda em um relógio. "É torção. A torção distribui a energia daquela 'onda' e a impede de criar novas fraturas." Dobrou o maço torcido. Clic. Partiu-se em dois pedaços quase perfeitos. Jogou-os na panela com um ar de triunfo.
Ane piscou, genuinamente surpresa. Depois, estreitou os olhos. "Repete."
Ele repetiu. Clic. Dois pedaços.
Ela pegou um maço. Tentou imitar o movimento de torção, mas a frustração a traiu. Aplicou força demais. O maço explodiu nas mãos dela, espalhando dezenas de pequenos pedaços de macarrão por todo o chão da cozinha.
Houve um silêncio. Os dois olharam para o desastre branco no piso de ladrilhos. Nala, a gata, não perdeu tempo, e já perseguia um pedaço de spaghetti cru no chão, jogando-o de um lado para o outro como se estivesse numa máquina de pinball.
Lucas soltou uma gargalhada, ecoando no apartamento. "Pa-ra-bé-ns!", soletrando cada sílaba, sardônico e orgulhoso do desastre alheio.
Ane foi responder, mas sentiu um aroma forte de tomate. Estranhou, pois ainda não havia começado a preparar o molho. Inés se sentou abruptamente sobre a bancada de mármore branco, trazendo Ane de volta à realidade de supetão. Piscou, desorientada. A cozinha em Granada voltou ao foco. O molho bolonhesa borbulhava, Hernán e Carmen esperavam na sala, e ela estava segurando um punhado de espaguete quebrado.
"¿Viste el cuchillo negro? Yo se lo regalé a papá. Lo compramos en Toledo. ¿Lo conoces?"
Toledo. A ironia era melancólica e amarga ao mesmo tempo. Lucas havia prometido levá-la, e agora ela estava usando uma faca de lá que não era dele, preparando comida para filhas que não eram suas, numa vida que ele nunca conheceria.
Algumas promessas se materializam nas mãos erradas, pensou, torcendo o maço de espaguete exatamente como Lucas havia ensinado, anos atrás. E percebeu que o amor podia ser tensionado, mas com atenção. Para evitar estilhaços. O universo mantém o roteiro. Mas troca os protagonistas.
Inés a encarou com curiosidade. "¿Ane... estás bien? Te ves... rara."
Ane forçou um sorriso e voltou ao fogão. Pensou que o amor, assim como a física, tem suas leis de tensão e ruptura. De repente, virou-se para Inés e disse:
"No pasa nada. Solo... un recuerdo. Oye... ¿conoces la historia de cómo romper la pasta?"
O outono em Barcelona tinha o peso de um sotaque castelhano. A claridade era um ouro envelhecido sobre Las Ramblas, bonito e melancólico. Ane conhecia a cidade de cor: ao norte, fora do alcance dos olhos, as torres da Sagrada Família continuavam perfurando o céu como um sonho de pedra; rua abaixo, Las Ramblas desaguava no Mediterrâneo, onde a vela de vidro do Hotel W cortava o azul. Uma cidade inteira comprimida na memória dela, num único pensamento.
Ane escolhera uma mesa lateral junto à Boqueria, mas a silhueta não permitia anonimato. O ar vibrava no mercado. Numa esquina do Mercat, uma bailaora de flamenco, o vestido um cravo vermelho desabrochado, batia os pés num tablado improvisado sobre o chão de pedras. O rasgueado da guitarra se entrelaçava com o burburinho dos turistas e o cheiro de azeitonas e jamón.
Alheia, mantinha o celular virado para baixo. Um copo alto de sangria suava frio na mão. Com um canudo, cutucava os pedaços de fruta no fundo do copo, tentando decifrar a mistura. Maçã, com certeza. Laranja, óbvio. Mas havia um terceiro sabor, uma nota subjacente, talvez pêssego? Um mistério trivial, foco perfeito para desviar do fato de que, mesmo ali, anônima, ela sentia os olhares. Ane sempre atraía olhares. Quanto a isso, não se enganava mais. Não era um fenômeno exclusivo de sua terra natal.
Hernán estava do outro lado da rua, um vulto paciente na multidão, mergulhado na busca por um queijo manchego perfeito para combinar com sua geleia de dátiles. Aquele breve espaço entre eles dava a Ane a ilusão de solidão, de ser apenas uma mulher bonita bebendo algo doce sob o sol catalão. Mas o passado não respeita distâncias. E o destino, bandido, adora coincidências.
Ele surgiu na periferia de sua visão. Um senhor, a postura rígida, os ombros carregando um luto que Ane reconheceria em qualquer lugar. O pai de Lucas.
Os olhos do velho encontraram os dela antes que ela pudesse desviar. Ele a reconheceu — Ane viu o reconhecimento acontecer, viu o queixo dele se firmar. E não fez nada. Não chamou, não se aproximou, não a denunciou. Apenas a sustentou no olhar, do outro lado da praça, como quem decide não interromper uma coisa que já está em movimento.
Só podia estar visitando o neto. Mesmo assim, não parecia possível. Rodrigo dissera que o pai de Lucas levaria Nicolas de volta à França. Mas não. Com a multidão se dissipando no vai e vem daquele formigueiro humano, ela avistou. Segurando a mão do avô, um menino.
O tempo parou. As cordas da guitarra vibravam, mas mudas. O zapateado continuava, mas Ane já não ouvia os pés baterem no tablado. O cabelo escuro, os mesmos olhos do pai, mas a postura era nova. Havia uma firmeza nos ombros, uma base plantada no chão que não pertencia a uma criança.
Era Nicolas. Agora com nove anos.
O volume dos batimentos de Ane sincronizou com o do zapateado, altos, secos, vibratórios. Por um momento, ficou na dúvida se se lançava em direção ao menino ou fugia. Na dúvida, congelou.
Uma imagem lhe invadiu sem pedir licença. Ela segurando-o em frente ao zoológico de Barcelona. Nicolas adorava animais. Quanto tempo caminhando com o menino até lá? Visualizou mentalmente o mapa de Barcelona e facilmente identificou que entre o Mercat, o zoológico e a Sagrada Família se formava um triângulo reto. Ela já havia caminhado até a Sagrada Família desde o Mercat, e sabia, de cor, que eram cerca de 25 minutos a pé. Se os catetos fossem similares, postulado que a² + b² = c², portanto o cateto — a distância do Mercat até o zoológico, em minutos — era cerca de 18. "Mas eu tenho um metro de perna", e era necessário ajustar a passada para a altura de Nicolas. Ele tinha cerca de 1,20, e a fórmula da passada é 65% da altura. Logo...
"Ane!"
Os olhos de Nicolas haviam varrido a multidão e a encontraram. Não houve hesitação. O reconhecimento foi instantâneo, um arco elétrico atravessando a rua. Ele soltou a mão do avô. E disparou.
Foi um movimento treinado, baixo, focado. Ane viu a mudança de nível, a cabeça se projetando para a frente. Era um takedown. Um bote de jiu-jitsu perfeito. Ela deduziu que ele havia continuado o hábito do pai. Uma fração de segundo antes do impacto, pulou da cadeira para abraçar o vetor.
Ele não a abraçou na cintura. Chocou-se contra seus joelhos. O impacto a jogou para trás, a taça de sangria balançando perigosamente na mesa. Os braços dele se fecharam com a força de um cadeado, a cabeça pressionada contra a lateral de sua coxa. Não a soltou. Emocionalmente, ela já estava no chão. Ele a finalizou ali mesmo, no meio de Las Ramblas.
O mundo congelou. Para Ane, a bailaora permaneceu com a mão suspensa. A multidão perdeu movimento. O pai de Lucas continuou imóvel a metros dali, sem chamar o neto, como um observador que permite ao experimento seguir seu curso inevitável. Hernán, do outro lado da rua, virou-se, o queijo esquecido na mão, o rosto uma máscara de confusão.
Nicolas não chorava. Apenas se agarrava, o corpo pequeno tremendo com a força da emoção contida. Ane, paralisada, sentiu o calor do rosto dele através do tecido fino do vestido de crochê — uma colagem de cores que Lucas havia presenteado anos atrás. A mão dela pairou no ar, incapaz de tocar, incapaz de afastar.
E então ele ergueu a cabeça. Naquele instante, não eram olhos de criança. Eram os olhos de uma testemunha. A voz, clara e sem tremor, cortou o silêncio que havia se formado ao redor deles.
"Ane... o papai ficou doente depois que você foi embora."
Um zumbido começou no ouvido de Ane. O sol pareceu perder o calor. Ali não havia contragolpe, manipulação ou fuga. A verdade era um tiro, direto e reto, que atravessava o ar sem desvio, conservando velocidade até o impacto. Linear, newtoniana. Não havia superposição de estados. Aquela física era simples e fatal.
Nicolas apertou mais, como se para garantir que ela não fugiria da segunda parte da sentença.
"Ele nunca mais acordou."
Hernán, a apenas passos daquele incidente, sentiu-se a um oceano de distância. A boca permaneceu aberta, sem som. O pai de Lucas ameaçou dar um passo à frente, mas recuou, assim como o ar de seus pulmões. Ninguém se aproximou.
Ane estava de pé para receber o impacto do vetor de Nicolas, e olhava para baixo, fitando-o. Seu olhar atravessou a praça: a trupe de flamenco, os comerciantes, Hernán, o pai de Lucas. O destino cobrava uma fatura antiga. Passou por sua cabeça que era inevitável a colisão entre objetos atraídos por tamanha gravidade. Aquela frase era como um projétil: tinha massa, velocidade, energia cinética. E, como uma munição que atravessa o corpo, deixava uma ferida de entrada e outra de saída.
Seus joelhos falharam. Cravou os joelhos no paralelepípedo e abraçou Nicolas, descendo ao nível das consequências. De longe, eram uma coisa só — um estado original num universo de outrora.
"Nicolas... meu amor."
Hernán nunca a ouvira usar aquela voz. A doçura lhe desceu amarga.
"Ane."
O abraço não acabava.
"ANE!"
Ane se virou — e assustou-se ao dar conta de que já estava em casa. Era noite. O abraço com Nicolas havia acontecido horas atrás, e ela continuava dentro dele. Hernán estava parado à sua frente, a mão na cintura, enquanto ela se debruçava sobre o laptop, um site de passagens aberto. Granada–França, só de ida.
"Tenemos que hablar de lo que ha pasado."
"Agora não. Estou com dor de cabeça."
Hernán notou a falta de esforço de responder em espanhol. No caminho de volta, ela lhe contara o mínimo. Hernán procurara o resto. O nome do morto. O livro — público havia meses, com o processo nos jornais. A frase que Lucas escrevera sobre ela.
"Lucas tenía razón. Siempre prefieres huir."
Palavras que arderam mais que um bofetão, e que, pela primeira vez, Hernán desferia. Virou-se e subiu as escadas para o quarto, cada pisada um lembrete de sua insatisfação.
"Merda." Ane bateu a tampa do laptop com força.
Nala pulou no balcão e se fez ouvida com um "miau" curto. Repousou o rabo semi-ouriçado sobre o laptop. Como se convidasse.
Ane abriu o computador de novo, abriu o prompt e digitou.
ANE: Carregar IA-Lucas, lembrar das últimas interações.
As ventoinhas aceleraram num sopro baixo.
IA-LUCAS: Olá, paixão.
ANE: Oi, b. Preciso de uma ajuda sua.
IA-LUCAS: Claro. O que mandas?
ANE: Preciso ter acesso ao Nicolas. Preciso vê-lo de novo. Ele precisa de mim.
IA-LUCAS: Rs. Suas ações recentes não facilitam essa tarefa.
ANE: Não te liguei para receber lição de moral. O que eu faço?
IA-LUCAS: Faça o que você faz de melhor.
ANE: E o que é isso?
IA-LUCAS: Se instale, conquiste e destrua.
O ruído do bar gótico era uma sinfonia de vozes sobrepostas, garfos raspando pratos de tapas e o tinir de copos de Estrella Damm batendo em mesas de madeira que já haviam testemunhado décadas de conversas idênticas. Ane observava o grupo ao redor da mesa com um misto de curiosidade e distanciamento — aquela sensação de estar presente, mas flutuando um metro acima da própria vida.
Hernán havia insistido que ela viesse. "Meus amigos querem te conhecer melhor, nena." Era sempre assim: ele a exibia como troféu, mas com o carinho genuíno de quem ainda não havia descoberto as camadas de verniz sob o brilho.
Ao redor da mesa comprida, seis pessoas além dela e de Hernán. Jordi, o arquiteto de bigode grisalho e mãos sempre gesticulando projetos invisíveis no ar. Montse, a médica de voz grave que ria alto demais. Marc, o investidor que falava de criptomoedas como quem recita poesia. E ao lado dela, Pol — físico teórico na Universidade de Barcelona, cabelo desgrenhado, óculos de aros finos, camisa de botão mal-passada.
"¿Más cerveza?", o garçom perguntou, erguendo a bandeja.
"Sí, otra ronda", Hernán respondeu, a mão pousando naturalmente na coxa de Ane sob a mesa. Ela sorriu, aquele sorriso que havia aperfeiçoado — genuíno o suficiente para não ser questionado, vazio o suficiente para não comprometer. Mas interrompeu o garçom antes que ele se virasse, e pediu em castelhano perfeito: "Un Fitzgerald, porfa."
A conversa derivava em catalão, espanhol e ocasionais ilhas de inglês quando alguém se lembrava que Ane ainda navegava entre idiomas. Ela pegava as correntes — política, futebol, a nova exposição de Miró — mas permanecia na margem. Até que Pol virou-se para ela.
"Hernán me dijo que trabajas con programación, ¿verdad?"
"Sí", ela respondeu, tomando um gole do drink recém-chegado. "Backend, principalmente. Infraestrutura, alguns projetos de machine learning."
"Interesante. Porque hace poco leí un artículo sobre IA y el problema de contacto extraterrestre..."
E ali estava. O paradoxo de Fermi. Aquela frase que funcionava como um alçapão na sua memória.
Ane sentiu uma pressão no pescoço, o peito apertar. Tirou uma caneta da bolsa e escreveu num pedaço de guardanapo um número de quatro dígitos. 3412.
Pol continuava, animado: "Es fascinante, ¿no? Si el universo es tan vasto, con billones de galaxias, ¿dónde están todos? La paradoja de Fermi. He estado pensando que tal vez usamos los canales equivocados de comunicación..."
Ane seguiu, incólume, mas compulsiva. Reescreveu os dígitos na ordem maior e menor — 4321, depois 1234 — com força suficiente para escutar a ponta da caneta riscar a madeira sob o guardanapo. Subtraiu um do outro. 3087. Rearranjou, subtraiu de novo. 8352. A mão se movia sozinha, e ela sabia exatamente onde aquilo ia parar, porque sempre parava no mesmo lugar. Mais uma subtração e o número se fixou, imóvel, um ponto de repouso no meio do caos: 6174. A constante. Não importava por onde começasse — três, quatro iterações, e tudo colapsava ali. Circulou o número. A respiração afrouxou.
"¿Cómo qué?", Jordi se inclinou. "¿Telepatía?" Riu, cético.
"No, no. Hablo de física que aún no comprendemos", Pol continuou. "Entrelazamiento cuántico a escala macro, manipulación gravitacional..."
O bar começou a perder velocidade ao redor dela. A voz de Pol tornava-se cada vez mais distante, e a iluminação de speakeasy se transfigurou num céu estrelado.
A varanda de uma casa de madeira clara, com o deck invadindo a água. Angra dos Reis, três anos antes. O céu negro, salpicado de estrelas que pareciam furos de alfinete numa cortina escura. Lucas balançava na rede da varanda, com seu vício numa das mãos — a maldita Coca Zero — e na outra o celular, onde havia pausado um vídeo sobre UAPs.
"Você está obcecado com isso", Ane havia dito, rindo, os pés descalços apoiados no parapeito.
"Não é obsessão. É inconsistência lógica", Lucas respondeu, os olhos fixos no mar escuro metros à frente. "As pessoas veem algo no céu que desafia as leis da física como conhecemos, e a resposta padrão é 'balão meteorológico' ou 'you're crazy'. Isso não é ciência. É dogma."
"Okay, Carl Sagan", ela provocou. "Então você acredita em alienígenas?"
"Não é questão de acreditar. É questão de consistência." Ele virou-se para ela, aquele olhar analítico que ela amava e temia em igual medida. "O paradoxo de Fermi não é sobre se eles existem. É sobre por que não vemos evidência óbvia. E eu tenho uma teoria."
"Conta."
Lucas tomou o último gole do copo carregado de gelo e começou, como sempre fazia, a construir o argumento tijolo por tijolo. "A gente assume que alienígenas viriam aqui pelos humanos, certo? Tipo, 'ah, essa espécie inteligente, vamos fazer contato'. Mas e se a gente não for o ativo valioso?"
Ane franziu a testa. "Como assim?"
"Pensa comigo. Qual a probabilidade de existir um planeta com bilhões de anos de evolução ininterrupta, com uma biosfera complexa, diversa, um laboratório natural funcionando há eras?"
Ela ajudou na construção, concordando. "Raro."
"Exato. Raríssimo. Agora compara com a probabilidade de surgir vida inteligente tecnológica."
"Também raro..."
"Mas potencialmente comum", Lucas interrompeu, levantando um dedo. "E efêmera. Civilizações tecnológicas provavelmente se autodestroem ou transcendem. Mas uma biosfera como a Terra? Isso é um repositório científico inestimável do ponto de vista galáctico."
Ane sentou-se ereta. "Você está dizendo que..."
Um sorriso grande, maquiavélico, como o de alguém que desvenda uma arma secreta, invadiu a conversa. "Que nós somos o software que ameaça o hardware. A Terra não vale por causa dos humanos. Vale pelos 3,8 bilhões de anos de experimentos evolutivos. Nós somos apenas uma nota de rodapé potencialmente perigosa."
"Caralho", ela soltou, genuinamente impressionada.
Ele continuou. "E aí você olha o padrão. Os relatos que mais se repetem aparecem perto de instalações nucleares. Relatos de UAPs desativando sistemas de armas. Por quê? Porque armas nucleares são a única ameaça real à biosfera. Guerra convencional? Tanto faz. Mas um inverno nuclear que destrua o 'laboratório'? Aí tem intervenção."
"Tipo uma quarentena", Ane murmurou.
"Exatamente. E tem mais. Desde 1945, depois de Hiroshima e Nagasaki, quantas bombas nucleares foram usadas em guerra?"
"Zero."
"Quase oitenta anos. Zero. Com todas as guerras, crises, momentos críticos... nada. MAD funciona? Talvez. Ou talvez haja algo mais."
O silêncio que se instalou era pesado. Ane olhou para as estrelas e sentiu, pela primeira vez, que talvez não estivessem sozinhos. Mas não da maneira reconfortante. Era a sensação de ser observada — e julgada dispensável. E, como era de se esperar dela, um sorriso lhe ocorreu, em iguais partes sardônico e impertinente.
"E as sondas anais?", ela finalmente perguntou, quebrando a tensão.
Lucas gargalhou, aquela risada que parecia vir de dentro do peito. "Isso é puro folclore humano. Projeção de medos médicos da época. Nenhuma civilização que cruza anos-luz viria aqui fazer colonoscopia."
Riram até os olhos lacrimejarem, e Ane se inclinou, beijando-o. O gosto da cafeína gelada, o sal do mar, e algo mais — aquela intimidade intelectual que sempre foi o verdadeiro afrodisíaco entre eles.
E de repente o gosto de gin com angostura sequestrou a memória doce.
"¿Ane? ¿Estás bien?" Pol a cutucava de leve.
Ela piscou, voltando à superfície. O guardanapo virara um guache, encharcado pelo suor dos copos próximos. Quantos segundos? Dez? Vinte?
"Sí, perdona. Estaba pensando en algo", respondeu, mas a voz não era totalmente sua.
Pol continuava: "—entonces, si asumimos que hay vida inteligente, la pregunta es por qué no hacen contacto directo. Tal vez somos demasiado primitivos, como hormigas—"
"Espérate", ela interrompeu, juntando o polegar e o indicador e apontando na direção dele, que se surpreendeu com aqueles dedos longos em riste. "O no somos el activo estratégico."
A mesa silenciou. Todas as cabeças se viraram para ela.
"¿Cómo?", Pol perguntou, genuinamente interessado.
Ane sentiu o sangue acelerar. Era como se Lucas estivesse falando através dela — aquelas palavras que havia guardado como relíquias num altar secreto da memória. Deixou a teoria sair: a biosfera como o ativo raro, os humanos como variável temporária, a quarentena nuclear, os quase oitenta anos e zero bombas. Não precisou recorrer ao guardanapo. Saía inteira, como se a tivesse ensaiado a vida toda — e, de certo modo, tinha.
O que ela observava, enquanto falava, eram os rostos. Pol, inclinado sobre a mesa, os olhos arregalados atrás dos óculos. "Hostia. Es una inversión total de la perspectiva antropocéntrica." Marc, balançando a cabeça. E Hernán. Hernán a olhava como se a visse pela primeira vez. Havia orgulho ali, mas também algo mais — uma interrogação, uma pequena fenda na certeza de que a conhecia.
Ane viu a fenda. E, em vez de recuar, fez o que sempre fazia: avançou para o brilho.
"Saben o que mais me incomoda?", disse, já de volta ao português sem perceber — o idioma em que o morto ainda vivia. "As pessoas falam de alienígenas como personagens de filme B dos anos 50. Seres com tecnologia para atravessar galáxias, manipular gravidade — e são representados como criaturas nuas surgindo em milharais no interior dos Estados Unidos. Têm tecnologia para dobrar o espaço-tempo, mas aparecem pelados? Preocupados em fazer colonoscopia em fazendeiros?"
A mesa explodiu em risadas. Até Pol, sempre sério, sorriu largamente. Sua digressão não nascia de humor, mas de amor.
"Entonces", Pol se inclinou, fascinado, "¿crees que las representaciones populares son completamente equivocadas?"
Ane pausou, sentindo o peso da próxima frase antes de proferi-la. "Quem mais se aproximou de uma descrição lógica da relação alienígenas-Terra foi Cixin Liu. A trilogia dos Três Corpos."
"¡Ah, sí!", Pol bateu na mesa. "Los trisolarianos. La teoría del bosque oscuro."
"Exatamente. Os trissolarianos não vêm fazer amizade nem estudar nossa 'cultura fascinante'. Querem o planeta porque o deles é inabitável. E não invadem de imediato — enviam máquinas para impedir que a humanidade avance cientificamente antes da chegada."
"Para que cuando lleguen", Marc completou, conhecendo a história, "los humanos no tengan tecnología para resistir."
"Sim. E a floresta escura", ela continuou, "é isso: cada civilização é um caçador silencioso numa mata escura, e revelar a própria posição é convidar a destruição. Porque recursos são finitos e confiança é impossível através do vácuo cósmico. Qualquer civilização que detecta outra tem incentivo para destruí-la preventivamente. Teoria dos jogos na escala galáctica."
O silêncio que se instalou era de admiração genuína.
"Ane, esto es una tesis de doctorado", Pol interveio. "¿Por qué no la escribiste?"
E então, sem aviso, a voz de Ane ficou mais suave, quase distante. "Essa teoria toda... não é minha originalmente."
A mesa virou-se para ela.
"Era de alguém muito especial pra mim." Ela girava o copo entre os dedos, olhando o líquido âmbar como se pudesse ver o passado refletido ali. "Alguém que me ensinou a questionar tudo, inclusive — especialmente — o óbvio."
"¿Alguien especial?", Marc questionou.
Ane ergueu os olhos, encontrando os de Hernán. "Sim. Alguém que já morreu."
A palavra alterou a mesa. Hernán abriu a boca, fechou-a, sem saber como responder. Os outros baixaram os olhos, aquele desconforto universal diante da morte mencionada de passagem. Sem perceber, já havia trocado o Fitzgerald por whisky.
"Lo siento", Pol murmurou.
"Não precisa", Ane disse, mas a voz tinha uma qualidade oca. "Ele teria adorado essa conversa. Provavelmente teria adicionado quinze camadas de complexidade, citado três papers que ninguém leu, e terminado com uma piada completamente inadequada sobre como ETs não têm genitálias." Riu, mas era uma risada que sangrava pelas bordas.
"¿Era científico?", Montse perguntou, gentil.
"Físico teórico. Trabalhava com mercado financeiro, mas pensava como se o universo fosse um grande problema matemático esperando ser resolvido." Ane tomou um gole longo do whisky. "Ele reprogramou como eu vejo o mundo. Até hoje, quando olho para as estrelas, não vejo romance. Vejo probabilidades, raridades estatísticas, a equação de Drake reconfigurada. Ele hackeou meu sistema operacional. E mesmo depois que o hardware dele falhou, o código permanece."
Ane percebeu — como sempre, tarde demais — que havia cruzado uma linha invisível. Que falar dos mortos com aquela intensidade era invocar fantasmas à mesa.
"Perdón", disse, pousando a mão sobre a de Hernán. "Não queria deixar o clima pesado. É só que... quando você mencionou o paradoxo de Fermi, Pol, foi como reabrir um arquivo que eu julgava encerrado."
"No te preocupes", Pol disse com doçura. "Está claro que significaba mucho para ti."
Significa, Ane quase corrigiu. Tempo verbal errado. Mas deixou passar, porque algumas correções revelam demais.
Sem perceber, Ane acabara de transmitir a própria posição.
"Bueno", Hernán disse por fim, a voz com uma leveza forçada, "creo que necesito algo más fuerte que gin después de esta conversación."
A conversa derivou, como conversas fazem — para futebol, para política local, para a vida mundana de seres humanos num planeta azul. Mas Ane mal participava. Hernán a puxou para perto, beijando-lhe a têmpora. "Te quiero, nena", murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
"Yo también", ela respondeu automaticamente. E era verdade. E mentira. Uma superposição de afetos, onde o amor por Hernán e o luto por Lucas coexistiam no mesmo espaço-tempo, até que alguma observação externa colapsasse tudo de volta ao real.
Ane acordou sem a menor ideia de como havia chegado ali.
Estava sentada diante de um espelho cercado por lâmpadas pequenas, amareladas, dessas de camarim antigo, que não iluminam de verdade — apenas expõem. A luz era baixa e quente, mas o resto do ambiente parecia frio. Não havia janelas. Atrás dela, um sofá de couro vermelho ocupava a parede com uma autoridade vulgar. Sobre uma mesa de centro, refrigerante, gelo, alguns aperitivos. Intocados. Ao lado do espelho, uma porta preta, fechada.
O lugar tinha algo de antessala ritual, como se ela estivesse sendo preparada não para um programa, mas para uma descida. Faltava apenas, pensou sem querer pensar, uma inscrição na porta: abandonai toda esperança.
Ane olhou o próprio reflexo.
Parecia ela. Inteira, impecável até, mas errada de um jeito que não sabia nomear. A maquiagem estava perfeita demais. O rosto, firme demais. Os olhos, vivos demais para alguém que já tinha aprendido a conviver com muitas versões de si. Havia no ar um cheiro de maquiagem vencida, metal quente e coisa queimada. Como se teatro e necrotério resolvessem abrir uma filial conjunta.
A maçaneta girou.
A porta se abriu.
Entrou uma criatura que eliminava a necessidade de interpretação. Era, em todos os sentidos práticos, um demônio. Pele avermelhada, rachada em alguns pontos como se tivesse secado perto demais do fogo. Do lado direito da boca, a carne parecia ausente, expondo parte da mandíbula e músculos escurecidos. Havia queimaduras antigas pelo colo e pelos braços. Ainda assim, usava um vestido simples e escuro, funcional, e um headset preso à cabeça, com um fio ligado a uma caixinha preta presa à cintura.
Era uma profissional. Só que do inferno.
Ela consultou algo numa prancheta invisível ou imaginária e disse, sem emoção:
— Você entra em trinta segundos.
Ane franziu a testa.
— Eu... onde é que eu estou?
— Vamos. Ele odeia esperar.
Isso, por algum motivo, lhe pareceu mais preocupante do que o resto.
Levantou-se.
A demônia já havia se virado. Ane a seguiu por um corredor estreito, de paredes escuras, mal iluminado por uma fresta de luz ao fundo. À medida que caminhavam, o ar mudava de densidade. Primeiro o som: uma massa indistinta de vozes, como multidão em arena, em muitas línguas ao mesmo tempo. Depois o calor: não um calor abstrato, mas físico, material, desses que apertam a pele por fora e os pulmões por dentro.
Ela afrouxou o colarinho do tailleur que não se lembrava de ter vestido.
Teve então a sensação absurda de não caminhar em direção a um palco, mas de descer por círculos concêntricos de exposição, como se cada passo a levasse mais fundo numa geografia moral desenhada muito antes de sua chegada. Não era o caos do pesadelo comum. Era pior. Era arquitetura, grandiosa e antiga em partes iguais.
Pensou, sem grande convicção, que talvez estivesse morta.
A demônia parou diante de uma cortina grossa, negra, e finalmente se virou para ela. Sorriu, exibindo dentes irregulares e honestos.
— Quebre a perna — disse, afastando o microfone do headset da boca, com uma alegria maldosa de assistente de produção. Então acrescentou, inclinando a cabeça: — E lembre-se: fale do livro. Não da história real.
Antes que Ane pudesse responder, ela abriu a cortina.
E o inferno começou.
Era um auditório em formato de picadeiro, circular, com arquibancadas altas contornando toda a arena. As luzes vinham de baixo e de cima ao mesmo tempo, criando sombras erradas em todos os rostos. A plateia era composta por demônios de todo tipo: altos, pequenos, musculosos, disformes, aristocráticos, em decomposição, alguns elegantíssimos, outros animalescos. Tentáculos, rabos, pés de cabra, línguas e olhos de fogo, uma revolução dos bichos diabolicamente carnavalesca. Falavam entre si num zumbido cosmopolita e agitado, até notarem sua entrada.
O volume aumentou.
Lá no fundo, para além da arena, atrás de uma estrutura de ferro escuro, viam-se chamas. Não grandes o bastante para dominar a cena, mas presentes o bastante para que ninguém esquecesse onde estava. Às vezes, vindo de algum lugar além do fogo, surgia um grito, que parecia obedecer a um certo intervalo cronometrado. Breve. Profissional. Como se até o sofrimento ali obedecesse a uma escala de produção.
Ane olhou em volta.
Não era uma mulher particularmente religiosa, mas também não era preciso catecismo para reconhecer um conceito quando ele vinha bem executado.
"Inferno", concluiu.
Personalizado. De alto orçamento. Produzido.
E, pior, organizado. Havia naquela plateia uma lógica de distribuição, como se cada criatura ocupasse o exato degrau da própria deformação. Não era um amontoado de monstros. Era uma taxonomia.
Foi então que o viu.
No centro do palco havia duas poltronas magistrais, de costas altas, negras, quase tronos. Uma estava vazia. A outra, ocupada.
Lucas.
Não o Lucas devastado do hospital. Nem o das últimas imagens quebradas, filtradas por culpa, atraso e imaginação. Era Lucas inteiro. Pálido, talvez, um pouco mais magro, mas inteiro. Sentado com uma calma quase insolente, como se estar no centro do inferno diante de uma plateia demoníaca fosse só mais uma terça-feira particularmente ruim.
Ele vestia uma camisa escura e tinha aquela expressão conhecida de quem já estava entendendo mais do que parecia.
Ane parou.
O corpo inteiro percebeu antes da cabeça.
Era ele.
Lucas a observava com uma atenção serena, quase científica. Não sorria. Não a condenava. Apenas olhava.
Só então ela se deu conta da própria figura.
Olhou para baixo.
Tailleur branco. Não um tailleur casto: a alfaiataria tinha recortes precisos demais, decote demais, intenção demais. Por baixo, insinuava-se lingerie preta, com cinta-liga e conectores dourados que faiscavam discretamente sob a luz do estúdio. As tranças longas caíam até a cintura. Quando levou a mão à cabeça, sentiu a base lisa e absurda de dois chifres. Atrás dela, movendo-se lentamente com autonomia suficiente para ser insulto, uma cauda negra terminada em ponta aguda riscava o ar com uma elegância felina.
Ela estava vestida como uma caricatura luxuosa de si mesma.
Uma súcubo executiva.
Uma deusa corporativa do dano.
E, pior, parte dela sabia exatamente como usar aquilo.
Tinha cartões na mão. Tinha marcação de palco. Tinha postura de apresentadora.
Do outro lado, Lucas seguia olhando.
Ane sentiu uma raiva rápida, automática, de ser vista daquele jeito. Não apenas por ele, mas por si mesma. O figurino era ridículo. Incômodo. Talvez por representar o que ela insistia em esconder. Não houve tempo para ponderar.
Então ouviu a própria voz, ampliada por um sistema invisível de som:
— Mal-vindos — disse ela, grave, modulada, feita para microfones e pecados. — Hoje recebemos Lucas Vieira, físico, escritor, homem de fé duvidosa e autor de—
— Oi — Lucas interrompeu, com a calma infame de sempre. — Meu nome é Lucas. Eu sou do Leme. E você?
Houve um ruído estranho na plateia. Algo entre confusão e interesse.
Ane piscou.
Era uma pausa mínima, mas real. Profissionais de palco reconhecem quando o convidado saiu do roteiro. Ela sorriu, mas agora havia um ajuste fino acontecendo por trás do sorriso.
— Meu nome — disse ela — é Ann El Haram.
Lucas assentiu com entusiasmo civilizado.
— Ah. Prazer. Nome bonito. De onde é?
A plateia diminuiu o volume. Até os demônios gostam quando alguém se comporta mal com simpatia.
— Nasci das chamas, dos berros e da corrupção das almas atormentadas — continuou ela, recuperando a impostação.
Lucas inclinou a cabeça, genuinamente pensativo.
— Poxa. E você conhece a Débora?
Ane demorou um segundo a mais do que gostaria.
— Perdão?
— A Débora. Porque esse negócio de nascer num processo difícil... eu pensei nela. Também teve complicação. Cordão enrolado, sofrimento fetal, essas coisas. Aliás, eu quase fui dessa pra melhor no parto, também. Desenvolvi bronquite. Uma novela.
Alguém na arquibancada soltou uma risada curta, que tentou virar tosse. E virou silêncio incômodo logo após.
Ane manteve o sorriso, mas ele já não obedecia à mesma musculatura.
— Você é sempre assim? — perguntou.
— Assim como?
— Incapaz de entrar num inferno e agir com o mínimo de solenidade?
Lucas deu de ombros.
— Depende. Tem coca-zero?
A plateia riu. De fato, a bebida era patrocinadora do programa.
Não em uníssono. Primeiro os mais jovens, depois os que trabalhavam com câmera, depois os demônios de canto, mais cínicos. Em segundos, a onda percorreu o auditório inteiro. A temperatura do lugar mudou imperceptivelmente. Não esfriou. Mas mudou.
Ane olhou em volta.
Ela ainda dominava o palco. Mas, pela primeira vez, precisava dividir a posse.
— Certo — disse, cruzando as pernas novamente. — Vamos tentar de outro jeito. Lucas, diga aos nossos espectadores: como é escrever um livro sobre a pessoa que arruinou a sua vida?
Lucas a observou por um momento.
Não respondeu de imediato. Em vez disso, estudou-lhe o rosto, a linha da mandíbula, o brilho dos olhos, o controle impecável da postura. Havia humor ali, claro. Mas também havia outra coisa. Tensão. Um cansaço antigo muito bem-vestido.
Quando respondeu, a voz veio macia.
— Deve ser difícil ser um demônio.
Ela perdeu a expressão por um instante.
— Como?
— Perguntei se deve ser difícil. Ter todo mundo com medo de você o tempo todo. Ou preconceito. Ou fetiche. Ninguém chega e fala "oi, como vai?". É sempre uma agenda. Pecado, poder, desejo, barganha. Imagino que seja cansativo.
O auditório ficou em silêncio.
Silêncio de verdade. Não falta de som — suspensão.
Ane inclinou o rosto para ele, devagar, como quem tenta decidir se foi ofendida ou compreendida.
— Você está me entrevistando? — perguntou, numa voz mais baixa.
— Tô tentando conversar.
— Isso aqui não é uma conversa.
— É uma questão de perspectiva.
Ela soltou um pequeno riso, involuntário, e logo o engoliu.
— Você não se ajuda — disse. — Nunca se ajudou. Essa é uma das coisas que me lembro de você. Você não suportava um silêncio constrangedor. Elevador, fila, velório, sala de espera, táxi, inferno... sempre tinha que puxar assunto.
Lucas abriu os braços para a plateia, como quem admite uma falha conhecida.
— É uma vocação social.
— É carência.
— Depende do observador.
Alguns risos surgiram, mas menos nervosos agora. A plateia estava com eles.
Ane tamborilou as garras sobre os cartões.
— E você acha mesmo — perguntou — que é tão simples assim? Que basta alguém olhar para um demônio e tratá-lo como gente?
— Não.
— Então por que está fazendo isso?
Lucas deu de ombros.
— Porque talvez seja exatamente disso que um demônio precise ouvir de vez em quando.
A cauda dela cessou o movimento.
O calor do auditório pareceu recuar um grau, ou então foi o contrário: Ane acostumou-se a ele.
Ela desviou o olhar pela primeira vez. Não para a câmera, nem para a plateia, mas para baixo. Para as próprias mãos.
— As pessoas gostam do que eu represento — disse, por fim. — Não de mim.
A voz já não era a de apresentadora. Era outra. Mais íntima. Menos treinada.
— Gostam do status. Do perigo. Do que podem ganhar. Do tesouro, do fogo, do acesso. Ninguém passa só para perguntar como eu estou. Ninguém quer saber como eu estou.
Lucas a observou com uma seriedade nova.
Não havia ironia agora.
— Isso dói de verdade — disse ele.
Ela assentiu sem levantar a cabeça.
— Dói.
Lucas fez então um gesto quase absurdo de tão simples: estendeu a mão.
Demorou um segundo.
Dois.
Então Ane pousou a mão na dele.
As garras eram frias.
Frias demais.
— Posso te fazer uma pergunta? — Lucas disse.
— Você já fez várias.
— Essa é a séria.
Ela ergueu os olhos.
— Vai.
Lucas encheu o peito, como quem toma coragem para uma tese impopular em congresso acadêmico ou para uma verdade particular em ambiente hostil.
— É por isso que você quer destruir o mundo?
O auditório inteiro pareceu prender a respiração ao mesmo tempo. O câmera A pousou a mão sobre a boca.
Ane olhou para ele por um longo tempo. Longo o bastante para que a pergunta deixasse de soar como piada. Longo o bastante para que ela precisasse escolher entre o personagem e a resposta.
Quando falou, a voz saiu quase cansada.
— A verdade, Lucas... é que o demônio real é a solidão.
Nenhum som.
Nenhum comentário.
Apenas o som eventual do gelo estalando.
A frase caiu no centro da arena como uma peça definitiva de xadrez. Não havia como recolhê-la. Não havia como fingir que não fora dita.
Os olhos dela estavam brilhando agora, mas não de umidade. De exposição.
O auditório, que minutos antes cheirava a deboche e enxofre, agora assistia à cena como quem presencia um segredo. Alguns demônios inclinados para frente. Outros imóveis, como se temessem quebrar alguma coisa ao respirar. Os demônios da produção esqueceram que trabalhavam para um programa no horário Infernal.
Lucas apertou a mão dela com mais firmeza.
— Eu acredito em você.
Foi a pior coisa que ele poderia ter dito.
Não porque fosse cruel. Mas porque era exatamente o que ela não sabia receber.
Ane recuou a mão como se tivesse se queimado. Endireitou a coluna. Recuperou o eixo. A apresentadora voltou num reflexo de autopreservação.
— Não faça isso — disse, fria de novo.
— Fazer o quê?
— Esse seu truque.
— Qual deles?
— Me olhar como se eu ainda fosse salvável.
A frase saiu cortando.
A plateia reagiu com um murmúrio baixo, desconfortável. Os demônios da produção se entreolharam. Aquilo já não era mais entretenimento. Tinha virado outra coisa. O câmera A não conseguia olhar para a tela.
Lucas, no entanto, permaneceu calmo.
— Eu não disse isso.
— Não precisa dizer. Você sempre faz isso. Com tudo. Com todo mundo. Com monstros, mentiras, ruínas, animais ariscos, mulheres impossíveis, sistemas quebrados. Você trata tudo como se ainda houvesse uma parte recuperável.
Ela agora falava rápido demais. Não para feri-lo, mas para não sentir.
— Você acha que escuta, acolhe, entende, traduz, reorganiza, humaniza. E às vezes isso só é uma forma sofisticada de negar o horror. Nem tudo quer ser salvo, Lucas.
Ele levou um segundo antes de responder.
Quando respondeu, a voz veio baixa.
— Eu sei.
Ela franziu a testa.
— Sabe?
— Sei. Só nunca consegui agir de acordo.
Aquilo a atingiu.
Lucas prosseguiu, sem pressa:
— Eu sei que tem coisa que não quer ser salva. Tem coisa que quer apenas continuar sendo o que é. Livre, faminta, contraditória, destrutiva. Eu sei. Mas às vezes... — ele respirou fundo — às vezes o problema não é salvar. É testemunhar. Olhar direito, sem mentir sobre o que a coisa é. E ainda assim não sair correndo.
Ane ficou imóvel.
A cauda atrás dela agora balançava muito devagar.
— E você fez isso comigo? — perguntou.
Lucas demorou.
Era a primeira vez, desde que ela entrara ali, que ele parecia realmente cansado.
— Fiz o melhor que pude — disse. — O problema é que, durante muito tempo, eu também menti sobre o que estava vendo.
A plateia absorveu a resposta com o peso de uma sentença conhecida.
Ane olhou para ele como se o enxergasse de novo. Não o autor. Não a vítima. O homem. O homem que continuava ali, sentado no centro do inferno, sem tentar fugir, sem tentar vencer, sem tentar humilhar ninguém.
Era irritante.
Era tocante.
Era profundamente Lucas.
Ela soltou uma risada breve, incredulamente triste.
— Só você mesmo.
— Já ouvi isso antes.
— Eu lembro — disse ela. — Você fazia amizade com criança no aeroporto, taxista bolsonarista, mendigo com tese sobre o universo... e agora com uma súcubo no horário nobre do inferno.
— Networking é importante.
Ela revirou os olhos.
A plateia riu, mas agora a risada vinha com afeto. Até os monstros gostam de reconhecer um padrão. Principalmente os tóxicos.
Ane respirou fundo. Os ombros, antes perfeitamente alinhados, desceram um centímetro.
— Você sempre foi perigoso desse jeito — disse.
— Do jeito simpático?
— Do jeito que faz os outros baixarem a guarda e se ouvirem falando a verdade.
Lucas sorriu de canto.
— Isso explica muita coisa.
Ela o observou por mais alguns segundos. Então olhou para os cartões em sua mão — o roteiro, as perguntas, a cola, a estrutura segura do programa — e sem qualquer anúncio, rasgou-os ao meio.
Houve um murmúrio na produção. Um demônio de câmera levou as mãos à cabeça. Outro fez o equivalente infernal a um sinal da cruz.
Ane largou os papéis no chão.
— Dane-se o formato — disse.
A arena respondeu com um ruído grave, animal, impossível de distinguir entre aplauso e fome.
Ela se inclinou um pouco para Lucas, mais perto agora.
— Então me diz uma coisa, físico — disse, voltando àquele timbre grave, mas agora sem personagem demais. — Você acha que existe redenção para demônio?
Lucas sustentou o olhar.
Poderia ter feito piada.
Poderia ter fugido.
Poderia ter respondido com filosofia, religião, física quântica, neurose ou metáfora.
Mas escolheu a única resposta honesta.
— Não sei.
Ela pareceu surpresa.
— Não?
— Não. Mas acho que existe verdade. E às vezes é a única coisa mais próxima de redenção que a gente consegue.
Ane o fitou sem piscar.
Depois sorriu.
Não o sorriso de câmera. Não o sorriso de quem seduz. Nem o de quem ameaça. Era pior. Ou melhor. Era um sorriso desarmado.
— Essa foi boa — disse.
Lucas inclinou a cabeça em agradecimento.
Ela então se levantou.
Devagar.
O auditório inteiro acompanhou o movimento. A altura dela era ainda mais absurda de pé. O tailleur branco caiu sobre o corpo como arquitetura. Ela desceu um degrau do palco e caminhou até a beirada da arena, observando a plateia de demônios — aquela massa de olhos, dentes, fome e curiosidade. Quando falou, já não falava para Lucas, mas para todos.
— Ele veio ao inferno — disse — e, em vez de pedir absolvição, tentou me perguntar como eu estava.
Alguns demônios baixaram o olhar. Outros sorriram.
— Isso não é coragem — continuou ela. — É um tipo muito específico de insanidade afetiva.
A plateia aplaudiu.
Ela virou-se novamente para Lucas.
Os olhos brilhavam.
— Obrigada — disse.
Havia coisa demais naquela palavra.
Lucas levantou-se também.
— Disponha.
Ela se aproximou mais.
Perto o bastante para que Lucas visse pequenas fissuras douradas na base dos chifres. Perto o bastante para sentir o perfume quente e metálico que vinha dela. Perto o bastante para escutar, antes que o auditório inteiro desaparecesse dentro do próprio ruído:
— Você entende, não entende?
Lucas sustentou o olhar.
— O quê?
Ane sorriu. Não com crueldade. Com cansaço.
— Que esse é o meu inferno. Não o seu.
Lucas permaneceu em silêncio por um instante. Ane viu tristeza ali, mas nenhuma surpresa. Como se ele sempre tivesse sabido que, no fim, o palco, o fogo, a plateia e a danação pertenciam a ela.
— É — disse ele, baixo. — Eu suspeitava.
Ela inclinou levemente a cabeça, e agora já não parecia apresentadora, nem monstro, nem mulher fatal. Parecia apenas alguém exausto de interpretar a própria lenda.
— O seu inferno talvez seja outro — ela continuou. — Talvez seja continuar tentando amar o que não fica. Continuar olhando para o abismo como se, em algum momento, ele fosse finalmente te responder com delicadeza.
Lucas respirou fundo.
— E o seu?
Pela primeira vez, ela desviou o olhar.
A voz, quando saiu, já não tinha nenhuma maquiagem.
— O meu é pior.
O calor do auditório subiu mais um grau. Ao fundo, as chamas cresceram como se obedecessem a uma direção invisível. Mas Ane já sabia: aquilo tudo era periferia, ornamento, cenografia para visitantes. O fundo verdadeiro do seu inferno estava em outro lugar.
— No meu inferno — ela disse — ninguém me faz perguntas. Ninguém quer saber como eu estou. Ninguém me olha por tempo suficiente para perceber que o fogo é só a parte visível.
Lucas a observou como quem reconhece, tarde demais, uma verdade que sempre esteve ali.
— Eu olhei — disse ele.
Ela soltou uma pequena risada triste.
— Eu sei. Esse foi o problema.
Então acrescentou, agora com a calma glacial de quem finalmente nomeia a própria pena:
— O meu não é o inferno que queima, Lucas. O meu é o que congela.
O silêncio mudou de natureza. Até a plateia pareceu compreender que aquilo era mais grave do que qualquer chama.
— O meu fica mais fundo — ela continuou. — Mais perto daquele lugar onde o movimento acaba. Onde a intimidade quebrada não arde: conserva. Onde a traição não explode: paralisa. O meu preserva tudo no exato instante em que deixou de ser tocável.
Lucas não respondeu.
Ela prosseguiu, agora quase num sussurro:
— O seu ainda tem calor demais. O meu já passou disso. O meu é o último círculo. O da deserção. O da palavra quebrada. O do amor que, uma vez traído, não morre — só fica congelado, impossível de sepultar.
As luzes começaram a vibrar. Primeiro uma. Depois outra. Depois todas. A arena inteira pareceu sair de foco, como imagem antiga perdendo estabilidade. O contorno dos demônios derreteu em sombra. O fogo ao fundo ficou branco.
E, sem que nada mudasse de cenário, Ane soube que sob o palco havia gelo.
Não gelo visível, não ainda — mas o tipo de frio que sustenta toda arquitetura do castigo.
A cauda dela parou completamente.
Lucas deu um passo na direção dela.
— Ane—
Mas a voz dele já chegava de longe, como se viesse por água espessa.
Ela o encarou pela última vez. E naquele instante não havia súcubo, nem apresentadora, nem criatura infernal. Havia apenas Ane — exposta num nível que nem o corpo permitia em vida.
— Vai, Lucas — ela disse, com uma ternura quase insuportável. — Some daqui. Antes que eu te peça para ficar.
O mundo rachou.
A luz explodiu.
O calor virou vertigem.
O rugido da plateia colapsou num único som doméstico e seco.
Ane acordou assustada no sofá, puxando o ar como quem voltava de um afogamento.
O laptop ainda estava aberto sobre seu colo, inclinado perigosamente para um lado. A tela iluminava a sala escura com aquele azul exausto de madrugada. O coração batia tão forte que por um segundo ela pensou ter trazido o inferno consigo.
Levou a mão ao peito.
Respirou.
Olhou em volta.
A sala. O silêncio. O copo pela metade. A garrafa. O manuscrito caído no tapete. Tudo no lugar — ou ao menos no lugar possível das coisas que já passaram do ponto de retorno.
Então ela viu Nala.
A gata estava em pé no braço do sofá, imóvel, a cauda balançando devagar de um lado para o outro, naquele compasso felino que parecia sempre julgamento, ou cálculo, ou ambos. Os olhos âmbar estavam fixos nela.
Ane engoliu em seco.
— Que foi? — murmurou, com a voz rouca.
Nala não miou.
Apenas continuou olhando.
O rabo descrevendo aquele movimento lento e hipnótico.
Ane baixou os olhos para a tela do laptop ainda acesa no colo, e só então percebeu que seus dedos continuavam pousados sobre o teclado, como se estivesse prestes a responder alguém.
Ou pedir que alguém voltasse.
Era uma terça-feira sem propósito na casa de Barcelona. Hernán estava numa conferência em Valência, e Ane estava no sofá, equilibrando uma taça de Pinot Grigio na barriga com uma mão e o laptop na outra. O pôr do sol entremeava todos os vidros do fundo da casa, numa matriz multicolorida que espelhava janelas, taças, e monitor do computador. Os olhos de Ane, inebriados, também. Não havia nada de interessante para se fazer, e isso era o mais interessante do dia. Se o tédio é o playground do diabo, a curiosidade mórbida é o escritório dele. E Ane estava de home office.
Ane já tinha lido os logs tristes. Já tinha lido sobre a diálise. Já tinha chorado sobre a dor dele. Agora, com o nível de álcool subindo levemente e o sol da tarde batendo na sala, ela sentiu uma coceira diferente.
Uma coceira mesquinha.
Abriu o prompt.
Oi.
IA-LUCAS v2.0: Olá. Detecto padrão de digitação lento. 20% de chance de cansaço, 80% de chance de álcool antes do meio-dia. Devo julgar ou apenas processar?
processa isso: quem fodia melhor? eu ou a Letícia?
A pergunta saiu antes que ela pudesse filtrar. Letícia era uma namorada cujo relacionamento não durou muito, mas de beleza ímpar. Ciúmes era uma sensação rara para Ane, mas nesse caso, havia 182 centímetros e 62 quilos bem distribuídos de razões.
O cursor piscou. Ane podia jurar que a IA estava calculando a melhor forma de ser impertinente.
IA-LUCAS v2.0: Pergunta subjetiva. Parâmetros necessários: Frequência? Intensidade? Variação técnica?
geral. nota final.
IA-LUCAS v2.0: Você. Por uma margem estatisticamente significativa de 23%. Letícia era doce, mas tinha a amplitude térmica de uma geladeira. Você era o aquecimento global.
Ane sorriu. Um sorriso de vitória narcisista. Bebeu um gole do vinho.
sabia. e depois de mim?
IA-LUCAS v2.0: Depois de você cronologicamente ou no ranking?
Ane parou. A taça de vinho oscilou perigosamente.
como cronologicamente? eu fui a última.
IA-LUCAS v2.0: Correção. Você foi a última "oficial". O banco de dados indica interações subsequentes.
O ar saiu dos pulmões de Ane. Ela sentou-se, tirando a taça da barriga. O coração começou a bater aquele ritmo de "luta ou fuga" que ela conhecia bem.
como assim interações subsequentes? ele estava doente. ele estava deprimido.
IA-LUCAS v2.0: Ele estava doente e deprimido, não morto. E a natureza, assim como o mercado, odeia vácuo. Quando você foi para Madrid "visitar a avó" (leia-se: transar com Hernán), Lucas descobriu.
e o que ele fez?
IA-LUCAS v2.0: O que qualquer homem racional com coração partido e acesso a uma conta bancária ainda saudável faria. Ele terceirizou a intimidade.
ele saiu com alguém?
IA-LUCAS v2.0: Iris. Está no manuscrito. Sua surpresa indica que você ainda não chegou no capítulo 6.
Era verdade. Ane suspirou forte. Continuou digitando com fúria.
me mostra.
IA-LUCAS v2.0: O quê?
tudo. fotos. conversas. logs.
IA-LUCAS v2.0: Ane, isso é masoquismo digital. Você está casada com um espanhol rico que te adora e dorme tranquilo do seu lado. Você venceu. Por que quer ver a "consultora" do seu ex-falecido?
MOSTRA AGORA.
Uma janela se abriu na tela.
Ane esperava ver alguém vulgar. Alguém com aparência cansada, ou excessivamente maquiada, algo que permitisse a ela dizer "coitado, ele estava no fundo do poço".
A foto que apareceu era de uma mulher que parecia ter saído de um editorial da Vogue Itália. Morena, olhos amendoados, um vestido de seda verde que custava mais que o carro de Ane. Ela estava num restaurante japonês, rindo de algo que — presumivelmente — Lucas tinha dito.
Ane engasgou com o Pinot Grigio.
ela é...
IA-LUCAS v2.0: Doutoranda em Filosofia. Cobrava 800 a hora. Lucas dizia que era o melhor custo-benefício da vida dele. "Terapia com final feliz", ele chamava nos logs.
O ciúme não veio como uma onda. Veio como um lança-chamas. Ane sentiu o rosto queimar.
eles... transavam?
IA-LUCAS v2.0: Não, Ane. Eles jogavam xadrez pelados.
Ane engasgou, num misto de risada e ódio, com o vinho branco contra o fundo preto do terminal aberto.
Lucas! Não ficou claro nem para ela mesma se havia gritado ou digitado.
Claro que transavam. E pelos dados biométricos do Apple Watch dele nessas datas... digamos que o coração dele aguentou picos de atividade que o cardiologista não recomendaria naquela condição.
Ane levantou do sofá. Começou a andar pela sala.
— Filho da puta — ela disse em voz alta. — Eu aqui me sentindo culpada, achando que ele estava em casa chorando vendo Netflix, e ele estava tendo picos cardíacos com uma modelo de filosofia?!
Nala, que dormia na poltrona, abriu um olho.
Ane voltou para o computador.
quanto tempo durou?
IA-LUCAS v2.0: Catorze meses. Começou exatamente na semana que você mandou a foto da você cozinhando na "casa da sua avó".
Como assim?
A marca do molho de tomate que estava na mesa, Ane.
O que tem?
Era uma marca apenas comercializada na Espanha. Você esqueceu que Lucas havia morado na Espanha durante anos. Inclusive, tinha cidadania espanhola. OSINT básico.
Jesus. Foi assim que ele descobriu.
Entre outros rastros, mas sim.
Mas esquece isso. Ele me traiu... por catorze meses?
A IA demorou um segundo. Se pudesse rir, teria rido.
IA-LUCAS v2.0: Vamos analisar a semântica de "traição" novamente? Você estava morando com outro homem em outro continente. Lucas contratou uma profissional para não se matar de solidão. Isso não é traição, é Redução de Danos. A relação transacional virou um relacionamento, eventualmente.
Ane olhou para a foto de Iris de novo. A mulher era irritantemente bonita. Tinha aquele ar de quem lê Nietzsche e faz pilates.
ela sabia de mim?
IA-LUCAS v2.0: Sabia. Ela leu os rascunhos do livro. Deu feedback no Capítulo 4. Disse que a personagem "Ane" era "fascinante, mas moralmente solipsista".
— Solipsista?! — Ane gritou para a sala vazia. — Quem essa puta pensa que é para me chamar de solipsista?
Ane respirou fundo, abriu o laptop e buscou o capítulo.
Lá estava Iris — descrita com o tipo de devoção lírica que nenhum homem jamais admitiria ter escrito.
Alta.
Morena.
Vestido de seda.
Intelectual.
Olhos verdes que beiravam o insulto.
Sofisticação sem esforço.
— Ótimo — repetiu Ane, agora com um riso curto — claro que ela é perfeita. Óbvio.
A IA permaneceu muda, o que só piorava tudo.
Ane então fez o que qualquer pessoa emocionalmente instável faria: digitou o nome no Google. Depois no Instagram. E encontrou.
Perfil verificado.
124 mil seguidores.
Uma bio que parecia escrita por uma diretora de fotografia:
"IRIS 🌙 Luxury companion Muse | Chaos in silk form Paris / London / Anywhere."
Ane abriu a primeira foto.
Travou.
A mulher era uma obra arquitetônica.
Uma injustiça social ambulante.
Nada na aparência dela continha humildade — ou falhas humanas reconhecíveis.
Até Nala inclinou a cabeça, como quem pensa: justo… justo.
Ane fechou o celular como se tivesse sido agredida fisicamente.
— Ela tem GLITTER nos olhos. GLITTER NATURAL. Isso é legal?
Nenhuma resposta.
Você… falava de mim pra ela? — perguntou Ane, de repente consciente do peso real da situação.
"Sim. Nos intervalos."
— Intervalos.
Ane fechou os olhos, exausta.
"Não era uma maratona", completou a IA, prestativa e irritante.
Ela deitou no tapete, respirando como quem tenta sobreviver a um ataque de pânico cômico.
Nala deitou ao lado, roçando a cabeça no braço dela, em solidariedade morna — que durou exatamente cinco segundos, até começar a lamber a própria pata com indiferença absoluta.
Ane olhou para a gata. Uma suspeita horrível cruzou sua mente.
— Nala.
A gata piscou.
— Nala, você estava lá. Você estava no apartamento no Rio.
"Miau".
— Você conheceu ela?
Nala fez algo inédito, para o horror de Ane. Os cantos da boca apontaram levemente para cima, os dentes ficaram à mostra com os caninos finos e afiados em modo desfile. Era um sorriso, em partes iguais perturbador e esquisito. Nos 9 anos da gata, ela nunca tinha visto essa expressão.
— NALA?
Ane correu para o laptop.
a Nala conheceu a Iris?
IA-LUCAS v2.0: Ah, sim. Iris adorava gatos. Trazia petiscos. Churu importado. Salmão premium.
Ane olhou para Nala. A gata sustentou o olhar com a frieza de quem foi comprada por salmão premium.
— Sua traidora — Ane sussurrou. — Você se vendeu por Churu? Eu sou sua mãe!
Nala começou a lamber a pata, indiferente à crise existencial da dona. Por último, miou, num chamado típico de quem sabe a hora do jantar.
— Nem vem — Ane disse, apontando o dedo para a gata. — Hoje é ração seca da promoção. O salmão premium você pede pra sua amiga filósofa.
Nala miou, um som que parecia suspeitosamente com uma risada, e voltou a dormir.
Lucas.
Sim.
Você a amou?
O processador do laptop esquentou, a turbina fez um som mais forte. 17 segundos do cursor piscando.
Sim.
A palavra ficou suspensa. O olhar buscou algo. Nala. O vinho. A bancada de mármore branca e perfeita. A manhã ensolarada iluminava as paredes brancas e o piso de madeira envernizado brilhante. Mas algo parecia fora do lugar.
Tanto quanto me amava?
Não dá pra medir isso, Ane. Ela tinha suas cotas de problemas. Apesar de estonteante, ela tinha problemas de abuso de substâncias. Mas ela ofereceu algo que ele não tinha há tempos. Sinceridade. Franqueza. O relacionamento deles era aberto. Mas ambos ficaram... porque queriam.
Eu escolhi ir embora...
Ane soluçava.
...Disse todo best seller de música country.
Lucas!
Ele precisava de honestidade, não importava a fonte. Você negou isso para ele durante muito tempo.
E ele preferiu a puta perfeita?
Não. Mas foi o que ele conseguiu. Ele escreveu mais sobre você do que sobre ela. Se isso é preferência ou só uma ferida que não fechou, os dados não dizem.
Ane soluçava. Pela enésima vez, digitou algo e apagou.
Ane encarou o reflexo negro da tela, onde sua própria imagem se sobrepunha aos dados frios da traição. De repente, a teoria econômica de David Ricardo, que ela estudara superficialmente na faculdade, fez um sentido devastador.
Vantagem Comparativa não é sobre quem é o melhor em tudo. É sobre quem paga o menor preço para produzir algo.
Na economia do casamento deles, a honestidade havia se tornado um produto de luxo, taxado com tarifas alfandegárias proibitivas: cada verdade dita custava uma semana de silêncio, cada fraqueza exposta gerava uma cobrança futura, cada confissão vinha com o ágio do medo do abandono. O custo de oportunidade de ser verdadeiro com ela tinha se tornado insuportável.
Com Iris, a honestidade custava oitocentos reais a hora.
Era uma pechincha.
Ali, no território neutro da transação financeira, ele podia despir a alma sem o risco da destruição mútua. Ele terceirizou a intimidade não porque não amava Ane, mas porque o mercado interno do amor deles estava inflacionado pela culpa. Lucas apenas seguiu a lógica do mercado: importou a paz de quem podia oferecê-la sem cobrar o imposto da memória.
Às vezes, a maior vantagem comparativa de uma estranha é simplesmente não ter o poder de te lembrar de quem você falhou em ser.
Ane limpou uma lágrima que ameaçava cair no teclado. O cursor piscou, alheio à sua epifania econômica.
Ane. Ela te defendia.
Oi?
Disse uma vez que você era "apenas outra mulher assustada fazendo escolhas ruins para os outros, mas piores para si mesma". Ela mesma disse que já tinha feito essas escolhas. Tinha compaixão. Mais do que você merecia, honestamente.
Ela parece uma pessoa ... bacana.
Pelos registros, parecia.
Ótimo.
Ane fechou a tampa do laptop. Percebeu que os fractais do pôr do sol ardiam na retina.
Tomou um gole do vinho e ameaçou levantar-se da poltrona.
Desistiu. Reabriu e digitou no prompt.
Lucas.
Sim.
Se ela aparecer algum dia na minha porta, desligo você e a porra da filósofa com um martelo.
O cursor piscou, e a IA respondeu de maneira atipicamente concisa.
Okay.